domingo, 15 de outubro de 2017

Colocando lenha na fogueira: correlação e causalidade em crescimento econômico.

Hoje, em sua coluna na Folha, Samuel Pessôa pergunta se indústria causa desenvolvimento (link aqui). Como mote coloca um resultado apresentado pelo meu colega de departamento, José Oreiro, mostrando a correlação positiva entre renda per capita e complexidade da economia em diversos países (link aqui). Samuel desenvolve seu argumento nos lembrando que existem outras variáveis que também estão correlacionadas com PIB per capita, por exemplo educação, e que também podem levar a uma economia complexa, nas palavras dele:

“É razoável supor que um sistema de educação de elevada qualidade seja capaz de causar ambos: crescimento econômico e complexidade produtiva. Fato esse que será ainda mais verdadeiro se o país não for muito dotado em recursos naturais –pois, se assim for dotado, como é o caso australiano, haverá outras oportunidades de desenvolvimento econômico.”

Para o leitor que não é chegado em estatística vale um exemplo que corre a internet e costuma ser usado em cursos de análises de dados. Segundo a história, que não tenho a menor ideia se é verdadeira, um pesquisador encontrou uma forte correlação positiva entre vendas de sorvete e ataques de tubarão em uma determinada praia. Seriam os tubarões atraídos por sorvetes? Será que ao comer sorvete os banhistas ficavam mais displicentes e se tornavam alvos mais fáceis para os tubarões? Nada disso. O que ocorre é que em dias quentes as pessoas tomam mais sorvete e vão mais à praia, não são os sorvetes que causam os ataques de tubarão, é o calor que causa que as pessoas tomem sorvetes e se exponham a ataques de tubarão.

Fenômeno parecido pode ocorrer com correlações observadas em economia em geral e crescimento econômico em particular. Para uma discussão mais elaborada recomendo o artigo “A Sensitivity Analysis of Cross-Country Growth Regressions” de Ross Levine e David Renelt publicado em 1992 na American Economic Review (ERA, v.82, n.4, pp.942-962). No artigo os autores mostram como correlações entre algumas variáveis e crescimento desaparecem quando outras variáveis são colocadas no modelo. A conclusão de Levine e Renelt é que das variáveis usadas e no período considerado apenas a taxa de investimento e a parcela de comércio no PIB são robustas para explicar crescimento. Quem se interessou e quiser um contraponto ao artigo recomendo dar uma lida em “I Just Run Two Million Regressions” publicado em 1997 por Xavier Sala-I-Martin na mesma American Economic Review.

O problema encontrado por Levine e Renelt é da mesma natureza que o apontado por Samuel Pessôa: como as variáveis usadas para explicar crescimento costumam estar relacionadas umas com as outras fica difícil encontrar efeitos de causalidades por meio de regressões. Para buscarmos por causalidade precisamos ir além das regressões, precisamos fazer experimentos ou encontrar experimentos naturais que permitam inferir relação causal, na falta de experimentos outras técnicas podem ser usadas, como é o caso de variáveis instrumentais, mas é preciso usar destas técnicas com moderação e desconfiança. Um amigo estatístico cera vez se referiu a variáveis instrumentais como uma magia negra inventada por economistas. Magia negra as vezes até funciona, mas cobra um preço alto de quem usa.

Para ilustrar o ponto do Samuel Pessôa vou fazer um exercício inspirado pelo texto dele na Folha. No texto Samuel escreve;

“Adicionalmente, esse fato deve ser ainda mais verdadeiro se o país, além de ter um excelente sistema público de educação e de ser pobre em recursos naturais, possuir um setor público que gaste pouco com seguridade social –sendo, portanto, um país em que a carga tributária é baixa e a poupança das famílias é muito elevada.

Se o leitor lembrou do caso asiático (Japão, Coreia, Taiwan e China) não foi mera coincidência. Muita educação de qualidade –reduzindo o custo do trabalho qualificado– e muita poupança –o que reduz o custo do capital– estão na origem da complexidade produtiva.”

Não tenho às mãos uma medida de complexidade, pelo menos não achei em uma busca rápida nas bases que tenho já arrumadas para o blog (Banco Mundial, FMI e PWT), e não tenho o PISA, até tenho, mas é muito recente para o exercício. Desta forma no lugar de complexidade vou usar participação da manufatura do PIB, média entre 1978 e 1983, para explicar a taxa de crescimento entre 1980 e 2014. Os dados de manufatura são do Banco Mundial e os de crescimento foram obtidos a partir de dados da PWT, foram considerados países com mais de um milhão de habitantes por volta de 1980 o que deixou uma amostra de sessenta e oito países. A figura abaixo mostra a reta de regressão entre as duas variáveis.




O coeficiente da manufatura como proporção do PIB é positivo e significativo a 5%. Com tais resultados alguém poderia ser tentando a concluir que alta participação da manufatura no PIB por volta de 1980 causou maior crescimento entre 1980 e 2014. O resultado muda se acrescentarmos taxa de poupança e educação. Na falta do PISA vou usar gasto em educação como proporção do PIB, a ideia é que quanto maior o gasto melhor será a educação, o que não é necessariamente verdade (link aqui), mas dá para o gasto. A taxa de poupança é a da base de dados do Banco Mundial. A tabela abaixo mostra as duas regressões.



Taxa de Crescimento

Modelo 1
Modelo 2
Manufatura/PIB
0,053**
(0,025)
0,039
(0,026)
Taxa de poupança

0,018
(0,013)
Gasto em educação (%PIB)

-0,146
(0,129)
Constante
1,715***
(0,434)
2,135***
(0,649)
Observações
68
68
R2
0,063
0,100
R2 ajustado
0,049
0,058
Estatística F
4,455** (df=1; 66)
2,365*(df=3; 64)
Nota:                                                                                                                  *p<0,1;   **p<0,05;   ***p<0.01

Como pode ser observado na presença da taxa de poupança e de uma medida, mesmo que ruim, de capital humano, a relação entre taxa de crescimento e participação da manufatura deixa de ser significativa. Porém, ao contrário da história dos ataques de tubarão, não encontramos a variável que está faltando, aquela que explica todas as outras. Alguns vão dizer que são as instituições, outros que é a complexidade, outros que é uma melhor medida de capital humano e por aí vai. A verdade é que dificilmente a variável será encontrada por meio de regressões e correlações, para estabelecer relações de causalidade vamos precisar de mais dados e mais experimentos naturais ou idealizados. Até lá vamos ter de usar a teoria, mas isso não quer dizer que vale tudo, modelos teóricos bem construídos dão o caminho para que escolhamos quais variáveis entram nos modelos econométricos, testes realizados por vários autores ajudam a refinar a intuição.

O que posso dizer é que variáveis como câmbio, participação da manufatura no PIB e mesmo a complexidade ainda não estão presentes em vários artigos e livros texto de crescimento econômico usados nas melhores e mais destacadas escolas do mundo. Para tomar um exemplo, no texto do Levine e Renelt foram usadas mais de cinquenta variáveis, incluindo número de revoluções e golpes de estado por ano, índice de liberdade civis e inflação, mas entre elas não aprecem nem câmbio nem manufatura.


sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Mais mentiras da propaganda do PT: Quando começaram os cortes de gastos nas áreas sociais?

Ontem fiz um post desmentindo uma das teses da propaganda do PT: a de que em 2015 estávamos em crise por conta de fatores externos (link aqui). Hoje o foco vai para outra tese ainda mais absurda e ofensiva: a de que em 2016 ocorreu um golpe que tinha como um de seus objetivos cortar gastos sociais. Segundo a propaganda petista vivíamos em um país maravilhoso até que em 2015 uma crise causada por fatores externos abateu nossa economia e golpistas malvados derrubaram Dilma com o objetivo de fazer o povo sofrer. Na tese delirante os golpistas começaram a cortar gastos sociais, especialmente em saúde e educação, tão logo chegaram ao poder e isso fez com que o Brasil voltasse a ser um país cheio de injustiças e miséria.

Fora da fantasia petista os cortes começaram ainda no governo Dilma e foram causados pelo mais elementar motivo para cortes de gastos: o dinheiro acabou. Anos de políticas econômicas irresponsáveis com bilhões em desonerações e subsídios para empresários amigos do governo, investimento sem retornos também em parceria com empresários amigos e programas mal planejados inviabilizaram as políticas do governo federal. Para ilustrar o ocorrido peguei os dados de despesas discricionárias do Ministério do Desenvolvimento Social, do Ministério da Saúde e do Ministério da Educação. Os dados estão na página da Secretaria do Tesouro Nacional (STN, link aqui), usei o acumulado em doze meses com valores deflacionados para agosto de 2017. Usei os gastos discricionários porque são os que costumam ser cortados em caso de ajustes, cortar gastos obrigatórios exige mudanças na legislação e/ou um longo período de ajuste para que a inflação faça o trabalho. A figura abaixo mostra os dados.




Repare que todos os gastos começaram a cair antes da posse de Temer como presidente interino. De fato, após a posse de Temer, observamos um aumento do gasto discricionário do Ministério da Saúde e estabilidade no gasto discricionário do Ministério do Desenvolvimento Social. Ambos vinham em tendência de queda no final dos governos petistas, expressão usada na propaganda do partido, e tiveram a tendência revertida no governo de Temer. O gasto discricionário do Ministério da Educação foi o único que teve queda no período, mas tal queda apenas continua a tendência herdada de Dilma.

Ao PT não bastou mentir na propaganda, foram além, insistiram em dividir o país entre apoiadores do partido e golpistas ressentidos com melhoras na vida dos mais pobres que o partido, a despeito das evidências internacionais, insiste em creditar a si mesmo e a liderança messiânica de Lula. Não parou aí, a propaganda teve ataques e a justiça que estariam agindo em aliança com os tais golpistas que povoam a versão petista para o ocorrido nos últimos anos. Enfim, ontem o PT mostrou sua pior face: mentiras, demonização dos oponentes, ataques a imprensa e as instituições e a defesa fanática de um líder messiânico. Palocci, fundador e por muito tempo um dos maiores quadros do PT, se referiu ao partido como uma seita, pode ser, não tenho o mesmo conhecimento do PT que ele, o que vi ontem não pareceu uma seita, pareceu um partido fascista.


quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Propaganda do PT insiste na tese da crise internacional em 2015, eu insisto em desmentir o PT.

A propaganda do PT voltou a absurda tese que a crise de 2015, que na realidade começou antes e já estava instalada em 2014, foi decorrência de uma crise internacional. Não creio que alguém ainda caia nessa conversa, mentira creio sim, mas, de toda forma, vale dar uma olhada nos dados de crescimento em 2015. Para isso peguei a base de dados do FMI, versão de abril de 2017, e selecionei a taxa de crescimento de todos os países com mais de cinco milhões de habitantes em 2015. Dos 114 países apenas 12 tiveram taxa de crescimento negativo e apenas 7 cresceram menos do que o Brasil, são eles: Iémen, Serra Leoa, Ucrânia, Líbia, Venezuela, Burundi e Belarus. Naquele ano atém mesmo a Grécia, foco da atenção de todos que falavam de crise, se saiu melhor que o Brasil. A figura abaixo mostra os países com crescimento negativo em 2015.




No resto do mundo o padrão foi de crescimento positivo. A média de crescimento dos países com mais de cinco milhões de habitantes foi de 2,59%, a mediana foi de 3,03%. A figura abaixo mostra a taxa de crescimento em todos os países da amostra com os países que tiveram crescimento positivo em verde e os países que tiveram crescimento negativo em laranja. Uma olhada na figura mostra o absurdo da afirmação da propaganda petista.




Essa não foi a única mentira da propaganda petista, tiveram várias outras, mas uma que também merece um post é a que ignora que os cortes na saúde e educação bem como as ditas perdas de direito começaram, para usar a expressão da propaganda, nos governos petistas. Até o fim de semana tento fazer um post sobre isso.


domingo, 8 de outubro de 2017

Viu o Homer Simpson, atirou no Mr Burns e acertou o Cletus Spuckler: Uma nota sobre definição de classe média e os planos de taxar os ricos.

O que é classe média? Essa não é uma pergunta fácil de responder. Tradicionalmente o conceito de classe média faz referência a uma parcela da sociedade que está acima dos trabalhadores de chão de fábrica e abaixo dos ricos ou da classe alta. Na versão Americana da Wikipedia classe média é definida da seguinte forma: “The middle class is a class of people in the middle of a social hierarchy. In Weberian socio-economic terms, the middle class is the broad group of people in contemporary society who fall socio-economically between the working class and upper class.” (link aqui). Na versão brasileira é dada a seguinte definição: “Classe média é uma classe social presente no capitalismo moderno que se convencionou a tratar como possuidora de um poder aquisitivo e de um padrão de vida e de consumo razoáveis, de forma a não apenas suprir suas necessidades de sobrevivência como também a permitir-se formas variadas de lazer e cultura, embora sem chegar aos padrões de consumo eventualmente considerados exagerados das classes superiores.” (link aqui). Em que pese a pegada mais marxista dessa última definição nos dois casos a classe média é associada a um extrato da sociedade que está acima do proletariado, para manter o jargão marxista, e abaixo dos ricos.

Visões mais simpáticas a classe média a identificam com maiores níveis de escolaridade, posições profissionais qualificadas e defesa de valores tradicionais, ou seja, um certo conservadorismo. Outros preferem apontar um lado reacionário e um alinhamento com os ricos contra os pobres, talvez por medo de se tornar pobre, quase uma mesquinharia. Não por acaso pensadores marxistas costumam criticar pesadamente e até odiar a classe média, segundo esses a classe média é o obstáculo à revolução. Talvez por isso alguns marxistas desistiram de brigar com a classe média e resolveram que melhor seria mudar os valores da classe média, daí vem muito do que se chama guerra cultural ou, para os mais conservadores, marxismo cultural. Nesta perspectiva existe uma campanha sistemática para destruir os valores tradicionais da classe média e substituí-los por valores revolucionários ou um vazio de valores a depender de abordagens específicas.

Na televisão o grande representante da classe média é Homer Simpson. Um sujeito que divide um posto de trabalho com dois amigos no que parece ser a área de segurança de uma usina nuclear, a esposa dele é dona de casa, possuem três filhos, uma casa em uma boa vizinhança e dois carros. Antes dele o papel foi de Fred Flintstone, um operador de guindaste, não é fácil distinguir operário qualificado do operário de chão fábrica na idade da pedra, que também mora em uma boa vizinhança, a esposa é dona de casa, tem dois filhos, automóvel e um série de eletrodomésticos que davam graça ao show. George Jetson e mesmo Peter Griffin também estão na lista de representantes da classe média na televisão. A lista é grande, todos com emprego razoavelmente estável, esposas, filhos, casas, automóveis, viagens de férias e outras características que os distinguem bem dos pobres que coabitam o mesmo universo. Mesmo em South Park, uma série ácida que ironiza a classe média, é possível identificar Kyle e Stan como pertencentes a típica família de classe média, Eric na fronteira e, talvez por isso, como o mais ácido da turma e Kenny como pobre.

Toda a sutileza de definir classe média a partir de valores, padrões de consumo e mesmo em termos de aliança de classes foi desafiada por economistas e estatísticos que resolveram estudar classe média. Na falta de uma definição precisa e na abundância de dados apareceu uma nova definição de classe média com base na distribuição de renda. A lógica, como costuma ser o caso com economistas e estatísticos, é cristalina: se é classe média então é porque tem uma renda próxima da média. Por preciso que seja esse conceito de classe média não bate com o anterior. A ideia de classe média dos Simpsons é universal, onde quer que passe o show Homer e sua família serão reconhecidos como classe média. A classe média estatística, chamemos assim a classe média definida por ter renda próxima à média, é local. Homer Simpson, Peter Griffin e Randy Marsh serão ricos em um país pobre do subsaara ou mesmo no Brasil e pobres em Luxemburgo. Da mesma forma Stuart McCormick e Carol McCormick, pais de Kenny em South Park, poderiam ser considerados classe média no Brasil.

Confuso? É confuso. Sem a definição estatística podíamos pensar em classe média como algo difícil de definir, mas fácil de identificar. Como a definição estatística a classe média ficou fácil de definir, porém difícil de identificar. Por exemplo, usando a definição estatística de classe média o excelente Instituo Mercado Popular (link aqui) publicou em 2015 um texto de Daniel Duque chamado “Você provavelmente não é da classe média – e é mais rico do que pensava” (link aqui) onde podemos ler:

“Como eu já disse, uma típica família de classe média brasileira tem renda entre R$ 300 e R$ 1000, o que garante uma posição entre os 30-75% da distribuição de renda no Brasil – ou seja, estatisticamente, a classe média é mais rica do que 30% dos brasileiros e mais pobre do que 25%. 

Dos quase 100 milhões nessa ampla faixa de renda, 20% estudaram até o fim do Ensino Fundamental, 23% completou no máximo o Ensino Médio e somente 4% tem um diploma universitário, o que mostra que a educação superior ainda é artigo de luxo na sociedade brasileira. E não só a educação, mas também a inclusão digital ainda parece ser uma realidade distante para grande parte dessa população, uma vez que mais de 47% destes afirmava não ter usado a internet nos últimos três meses.”

Definitivamente a classe média dos desenhos e dos filmes, a classe média de Webber e Marx e a classe média que identificamos facilmente quando encontramos não está descrita no trecho acima. Quem está aí é a classe média estatística, aquela que tem definição precisa, mas é difícil e ser identificada. Por essa descrição apontaríamos Cletus Spuckler e não Homer Simpson como o representante da classe média.

Qual a relevância dessa discussão? Não se trata aqui de se rebelar com a definição da minha profissão, longe disso, não creio que seja o caso de dizer qual definição seja certa ou errada e, por isso, não é o caso de adotar uma ou outra definição. O que é relevante é que muitas vezes os dois conceitos de classe média são usados como se dissessem respeito à mesma coisa e isso não é o caso. Se usamos o conceito estatístico, como por exemplo o que classe média é quem está acima dos 30% mais pobres e abaixo dos 25% mais ricos, ou seja, entre os 30-75% da distribuição de renda dizer que aumentou a classe média só tem implicações na distribuição de renda. Não é possível tirar daí nenhuma implicação quanto a mudanças de valores ou mesmo melhora no padrão de vida.

Efeito semelhante acontece quando alguém fala que vai taxar a classe alta usando a classificação advinda do conceito estatístico. A ideia de taxar alguém que tem dinheiro “sobrando” depois de pagar pelo colégio do filho, a casa própria, o carro, a viagem de férias, a feijoada de sábado e mais alguns mimos da classe média, ou seja, taxar quem está além da vida idealizada de classe média pode ser tentadora para muitos. Porém quando falamos de classe alta pelo conceito estatístico não estamos falando disso, estamos falando de alguém que possui uma renda entre as 25% maiores do país. De acordo com o texto do Mercado Popular que citei acima em 2015 estaríamos falando de uma família com renda mensal de mil reais.

Para fins de tributação, principalmente de renda e riqueza, considerar toda a população talvez não seja adequado. Em 2016 a Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda publicou um relatório sobre a distribuição de renda no Brasil a partir dos dados do imposto de renda (link aqui). Isso permite que olhemos a distribuição de renda somente entre os que são ricos o suficiente para pagar o imposto de renda, grosso modo falo de quem ganha mais de R$ 1908,38 por mês. Para estar entre os 50% mais ricos desta turma é preciso uma renda bruta de mais de R$ 57.615 por ano, ou seja, R$ 4.801,25 por mês, uma renda que, se considerada a população como um todo, deve ser suficiente para te colocar entre os 10% mais ricos do país.

Creio que já deu para pegar a ideia. Todo cuidado com conceitos de classe média é pouco, toda vida que alguém tentar te convence de taxar os ricos pergunte qual a definição de rico que está sendo usada, melhor, pergunte qual a faixa de renda que vai ser taxada. Se não fizer isso você corre o risco de apoiar uma medida para taxar o Mr. Burns e vai acabar taxando também o Homer Simpson e até o coitado do Cletus.






quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Votação do fundo eleitoral por partidos,

Ontem a Câmara aprovou mais um fundo para financiar partidos políticos sem se importar que o país vive uma de suas maiores crises e o governo está tentando fazer um ajuste fiscal que afeta educação, saúde, ciência e outras áreas importantes. Aparentemente a maioria de nossos deputados acredita que financiar campanhas caríssimas é a forma adequada de usar os recursos retirados de quem paga impostos, muitos dos quais tiveram que ajustar seus orçamentos para enfrentar a crise.

Para ajudar o pagador de impostos que também é eleitor a decidir como responder a esse verdadeiro ataque do Congresso organizei os votos de ontem por partido. A princípio nossos representantes manobraram para que não soubéssemos quem votou a favor do fundo eleitoral, mas devido a ação de alguns deputados e aspectos formais do regimento da Câmara o UOL acabou conseguindo a lista dos que foram favoráveis ao fundo (link aqui). A informação correu a internet e foi divulgada em vários outros sites, para elaborar as figuras abaixo usei a reportagem da Carta Capital (link aqui), o motivo foi a facilidade para tabular os dados. Para efeitos de análise considerei apenas os votos "sim" e "não", ou seja, desconsiderei as abstenções dos deputados Leônidas Cristino (PDT-CE), Andres Sanchez (PT-SP) e Gilberto Nascimento (PSC-SP), o presidente do Câmara, deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ), não votou conforme o regimento da casa.

A figura abaixo mostras os votos sim (favoráveis ao fundo) e não (contrários ao fundo) por partidos. O partido que deu mais votos para aprovação do fundo eleitoral foi o PT (51), seguido pelo PP (29), PMDB (25), DEM (22) e PSD (14). Na outra ponta PRB, PROS, PSOL, PV, REDE, PEN e PSL não deram nenhum voto para aprovar o novo fundo para financiar partidos. Dos partidos com trinta ou mais votos o PSDB, o PR e o PSB votaram majoritariamente contra o fundo eleitoral.



A próxima figura mostra a proporção de votos favoráveis a aprovação do fundo em cada partido. PT, com 51 votos, PCdoB, com 12 votos, e PRP, com um voto, foram os partidos que votaram 100% a favor do fundo. Nem um dos deputados presentes dos referidos partidos parece ter se indignado com tal uso de recursos públicos a ponto de votar contra o projeto, no caso do PT teve um que se absteve. Na figura destaco o percentual de votos favoráveis ao fundo em cada partido para que o leitor tire suas próprias conclusões.


Creio que os partidos que se dizem preocupados com cortes de gastos sociais perderam uma excelente oportunidade de direcionar pelo menos R$ 1,7 bilhões para  essas áreas. Mesmo agora, depois da aprovação, é possível fazer algo, compartilho com os leitores do blog a sugestão que fiz hoje pela manhã no Facebook:

" Partidos indignados com os cortes na ciência podem pegar a bolada que ganharam com o imoral fundo aprovado ontem e investir no setor. Façam um edital público oferecendo bolsas de R$ 2.000,00 por mês durante três anos para cientistas que realizem pesquisas em áreas que o partido considera prioritárias, o valor é maior que as bolsas do tipo oferecidas pelo CNPq. Cada bolsa terá um custo total de R$ 72.000,00, bolsa não paga impostos trabalhistas nem de renda, peguem o total de recursos que vão ganhar dividam por R$ 72.000,00 que vai dar o número de cientistas que podem ser beneficiados. Anunciem o programa como marketing institucional do partido, o TSE deve aceitar isso na prestação de contais, afinal, como sabemos, o TSE já aceitou coisas bem mais difíceis de justificar. Com alguma criatividade e boa vontade a ideia pode ser adaptada para ajudar nas áreas de saúde e educação."

As cartas já foram dadas e parte delas reveladas, cada um que faça o que achar que deve fazer, mas depois não venha me sensibilizar com discurso que defende isso ou aquilo, pelo voto de cada partido é possível saber o que cada um defende e em que intensidade.


domingo, 1 de outubro de 2017

Comentários a respeito dos cortes de gastos em ciência e tecnologia

Cientistas laureados com o Prêmio Nobel enviaram uma carta ao presidente Michel Temer alertando dos riscos de cortar verbas para a ciência (link aqui). A íntegra da carta não foi divulgada na reportagem do Estadão, em uma busca na internet eu não consegui encontrar. Mas pelas reportagens e os trechos divulgados parece que a carta alerta para os danos irreversíveis de cortes na ciência e recomenda que mesmo com as dificuldades que estamos passando a setor deveria ser preservado.

Na literatura de crescimento econômico não faltam argumentos mostrando a importância de investimentos em ciência e tecnologia para o bom desempenho de uma economia no longo prazo. Também não faltam teorias justificando que parte desse esforço deve ser feito pelo estado. Desta forma é justo afirmar que, na medida que seja possível falar de consenso entre economistas, existe um a respeito da importância dos investimentos que estão sendo cortados no Brasil.

Não me recordo de ter ouvido algum político afirmando que investimentos em ciência, tecnologia não são fundamentais. Pelo contrário, argumentos sobre a importância de ambos são abundantes na maioria dos programas de governo apresentados ao distinto público pelos pretendentes ao posto de inquilino do Palácio do Planalto e dos diversos palácios que sediam governos estaduais pelo país.

Se é assim porque os cortes? Alguma pessoas, inclusive cientistas, podem cair na tentação de acreditar que os cortes decorrem de uma opção de governo por condenar o Brasil a uma eterna dependência ou coisa parecida. Pelo que observo quanto o mais o comentarista é ou foi atraído pela esdrúxula teses que o atual governo resulta de um golpe de estado maior a probabilidade da adesão a tal tese. Não creio nisso, talvez por não crer que houve um golpe, pelo que sei de ajustes fiscais governos só os fazem quando não têm outra opção e uma vez que começa o ajuste os cortes são feitos onde é possível. Infelizmente na categoria possível encontram-se os investimentos em geral e os investimento em ciência e tecnologia em particular.

A lógica é simples, quase rasteira, quando percebem que a situação financeira do governo está insustentável alguns governantes tendem a empurrar com a barriga até que outro assuma o cargo e tenha que fazer os cortes. Outros ignoram o problema até conseguir se reeleger na crença que o eleitor saberá perdoar, no caso de Dilma, um caso extremo, foram usados diversos artifícios para não reconhecer o problema fiscal, inclusive as fraudes contábeis que acabaram por tirá-la do cargo. Quanto mais tempo dura a enganação, mais brutal e desastrado será o ajuste. No caso do Brasil demorou demais, e, por isso, o ajuste fiscal que começou ainda em 2014, logo após as eleições, foi tão destrambelhado. Quando o ajuste se impõe não é fácil encontrar onde cortar gastos, várias pessoas foram contratadas e não podem ser demitidas nem ter seus salários reduzidos, várias outras despesas são reguladas por lei e exigem reformas na lei ou mesmo na Constituição para serem cortadas, alguns programas tem forte apelo social e político e pro aí vai de forma que acaba sobrando para investimento e algumas despesas correntes discricionárias. Por isso Dilma entre 2014 e 2016 e depois Temer em 2016 e 2017 fizeram cortes em vários setores que os senso comum e os especialistas dizem não ser o melhor lugar para fazer cortes. Por isso é preciso pressionar permanentemente o governo por cortes, se ficar por conta dos políticos cortes sempre serão adiados e quando forem inevitáveis serão feitos sem critérios mais sofisticados do que o "corta onde dá para cortar".

Como todo argumento lógico o meu é tão bom quanto a boa vontade que o leitor me oferece, por isso resolvi olhar os dados. No sistema SIGRA/IBGE estão os dados de investimento em pesquisa e desenvolvimento como proporção do PIB (link aqui).. Infelizmente os dados só vão até 2014, ou seja, deixam de fora a maior parte do ajuste fiscal, mas mesmo assim é possível tirar algumas conclusões. A figura abaixo mostra o investimento federal em ciência e tecnologia entre 2000 e 2014. Dois fatos chamam atenção: o aumento drástico em 2013 e a queda em 2014.



Não é difícil ver que aquele aumento em 2013 não foi sustentável, também não é difícil ver como a queda começa ainda em 2014, ou seja, durante o governo Dilma. A figura ganha impacto quando lembramos que em 2014 o crescimento do PIB ficou próximo de zero, ou seja, não foi o denominador que derrubou a série. Por quê o governo Dilma resolveu cortar investimentos em pesquisa e desenvolvimento após tantos anos investindo no setor? Será que Dilma ficou "do mal" e resolveu condenar o Brasil a tal dependência eterna? Será que Dilma se concluiu que o dinheiro investido não estava dando retorno? Não me parece que nenhuma das perguntas tenha uma resposta afirmativa, no caso da segunda pergunta o ponto é válido, mas não creio que foi a abordagem usada por Dilma. Aliás, a comunidade científica deve explicações sobre o que foi ganho com todo o dinheiro investido no setor, segundo o prof. Marcelo Hermes o resultado foi frustrante (link aqui), mas isso é assunto para outro post. Dilma cortou no investimento em pesquisa e desenvolvimento porque foi onde deu para cortar. Assim são feitos ajustes fiscais em geral e tudo fica mais grave no caso de ajustes que foram adiados por muito tempo de forma irresponsável como foi o caso do Brasil.

Por que não houve gritaria em 2014? Em parte porque estava muito no começo do ajuste e o governo Dilma ainda tinha créditos com a comunidade científica. Em parte por afinidade política, não é segredo a proximidade da comunidade científica com o PT. Também porque parte dos cortes foram mascarados pela elevação dos investimento das empresas em pesquisa e desenvolvimento. A figura abaixo mostra o investimento total em pesquisa e desenvolvimento entre 2000 e 2014.




Repare que houve crescimento em 2014. Isso não é bom? O setor privado assumindo um papel relevante no financiamento da pesquisa? Melhor ir com calma. Na série do SIDRA/IBGE estão incluídos os investimentos das estatais. Sem saber o que é empresa estatal e o que é de empresa privada fica difícil avaliar se as estatais mascararam os cortes de investimento no setor, o que não seria exatamente uma novidade no Brasil, ou se o setor privado de fato segurou a onda em 2014. Mas a figura chama atenção de outro fato importante: a queda significativa do investimento em pesquisa e desenvolvimento como proporção do PIB nos primeiros anos do governo Lula dando sequência ao que vinha ocorrendo nos últimos anos do governo FHC. Não lembro se teve carta de prêmio Nobel ou tamanha reação da comunidade científica naquela época. Estou sugerindo que os cientistas que assinaram a carta são petistas? Claro que não, longe disso. Minha tese é que a comunidade científica se acostumou com um patamar de recursos que talvez não seja real e está ressentindo a volta a realidade. Pior, com mais gente para dividir o bolo.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Venezuela, preço do petróleo e óleo de peroba

Vez por outra me assusto com o que vejo no FB, ontem foi um desses dias. Apareceu no meu feed de notícias um texto afirmando que a crise na Venezuela é por conta da queda do preço do petróleo e não das desastrosas medidas econômicas do tirano de Caracas. Não creio que alguém acredite nisso, mas, por via das dúvidas, resolvi juntar e compartilhar alguns dados com os leitores do blog. Nada de muito impressionante, mas que pode útil na pouco provável hipótese de algum leitor esbarrar com alguém que acredite nesta conversa.

Começo por mostrar quais são os países que são mais dependentes do petróleo. A base de dados do Banco Mundial (WDI) lista o quanto a renda do petróleo representa no PIB de cada país. O dado mais recente para Venezuela é de 2013, desta forma fiz a média da proporção da renda do petróleo no PIB para todos os países entre 2010 e 2013. A figura abaixo mostra os dezenove países onde a renda do petróleo foi maior que 20% do PIB entre 2010 e 2013. A Venezuela aparece na décima quinta posição, com a renda do petróleo correspondendo a 23,9%. Em primeiro lugar está o Congo com 60,88%, além do Congo no Kuait, na Líbia e na Guiné Equatorial a renda do petróleo corresponde a mais de 505 do PIB.




Fosse a queda do preço do petróleo a principal responsável pela crise que se abateu na Venezuela a partir de 2014 era de se esperar que os outros países da lista tivessem passando por crises semelhantes. A figura abaixo, construída com dados do FMI, mostra a taxa média de crescimento dos países que estão na figura anterior no período 2014 a 2016. Apenas a Líbia teve um desastre maior que o da Venezuela. Para quem não lembra a Líbia está em guerra civil desde 2011 quando da queda Muammar Kadhafi que tiranizou o pais por várias décadas, guerra que ficou mais intensa a partir de 2014 com o conflito entre o governo oficialmente reconhecido, a Irmandade Muçulmana, o Conselho de Benghazi e o Estado Islâmico.




Mesmo o Congo, onde a renda do petróleo corresponde a 60,88% do PIB, conseguiu uma média de crescimento positiva entre 2014 e 2016. De fato, da lista de países apenas quatro tiveram crescimento negativo no período: a Líbia e a Guiné Equatorial, ambos com renda do petróleo acima de 50% do PIB, a Líbia em guerra civil e a Guiné Equatorial governada por um dos mais antigos ditadores no cargo. Os outros dois foram o sultanato de Brunei e a tirania de Caracas.

Enfim, é claro que a queda do preço do petróleo teve efeitos na economia da Venezuela, mas a destruição que está acontecendo no país vizinho está longe de ser o padrão em países ainda mais dependentes do petróleo que a Venezuela. Ainda não posso dizer que o chavismo tem o potencial destruidor de um Estado Islâmico, por outro lado digo sem dúvidas que quem culpa o preço do óleo negro pelo desastre venezuelano está precisando de outro tipo de óleo, um tal óleo de peroba.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Avaliação da CAPES por área: uma olhada bem rápida na distribuição dos centros de excelência.

Quem me conhece sabe que não sou exatamente um entusiasta do modelo de avaliação da CAPES, tenho problemas tanto com a forma que a avaliação é feita quanto com o conceito de uma agência do governo avaliar a pós-graduação e classificar a pesquisa em todo o país. Mas independente de meus questionamentos ou mesmo de meu inconformismo a avaliação é feita e é considerada pela comunidade acadêmica brasileira. Sendo assim resolvi dar uma olhada nos programas de excelência por área de conhecimento.

A comparação é delicada, cada área tem sua própria comissão de avaliação e os critérios utilizados não são exatamente os mesmos. Por outro lado a CAPES tenta padronizar a avaliação tanto por meio de diretrizes quanto por uma análise posterior dos documentos elaborados por cada área. No saldo geral as notas são muito influenciadas pela área, mas tem alguma consistência entre as diversas áreas.Tal consistência faz com que em todas as áreas centros classificados com notas seis ou sete tenham inserção internacional maior que o que é costume na área. Falo isso não por desejar que as notas fossem mais padronizadas ou por dar um valor especial aos critérios de internacionalização usados pela CAPES, pelo contrário, falo apenas para localizar o leitor a respeito dos riscos das comparações abaixo.

Comecemos com a concentração de programas com notas seis e sete, os ditos centros de excelência. A área Ciências Biológicas III é que tem a maior concentração de programas de excelência, 35% do programas da área foram classificados como seis ou sete. Em seguida, com 28% dos programas classificados como de excelência aparece a área Ciências Biológicas II. A considerar a avaliação da CAPES os programas brasileiros na área de biologia se destacam em termos de inserção internacional, na área Ciências Biológicas I cerca de 22% dos programas são de excelência. Entre as dez áreas com maior proporção de programas seis ou sete apenas uma, Ciência Política e Relações Internacionais, é de ciências sociais ou humanas, cada um que tire suas conclusões. Na área Economia 18% dos programas ficaram com notas seis ou sete, estamos acima da média que foi de 14% dos programas com nível de excelência. A figura abaixo mostra a proporção de programas seis e sete por área da CAPES.



A avaliação das proporções é interessante para termos uma ideia da distribuição de programas de excelência nas diversas área, mas algumas vezes é importante termos uma noção de tamanho. É possível que uma área tenha uma proporção alta de programas de excelência por ter um número muito baixo de programas, não que isso seja um problema, mas é um ponto que deve ser considerado se, por exemplo, estamos interessados em avaliar número de patentes produzidas em uma determinada área. A figura abaixo mostra a distribuição do total de programas seis ou sete por área. Mais uma vez as ciências humanas e sociais aparecem com apenas um representante na lista das dez áreas que lideram o ranking, dessa vez foi a área Letras/Linguística. Com nove programas classificados como seis e sete a área de Economia fica abaixo, porém próxima, da média que foi de 9,5 programas de excelência pro área.


Não sei dizer a utilidade dos números acima, como já disse tenho críticas a avaliação da CAPES e não arisco apostar que peculiaridades das áreas tenham mais influência sobre os números do que a CAPES gostaria. De toda forma os números estão aí, se eu me animar faço uma avaliação dos resultados da UnB ou uma comparação entre as grandes universidades do país, talvez esta comparação seja mais útil, não sei dizer. Só sei que depois da eliminação do Botafogo e de um dia olhando dados de estados fazer esse post foi a diversão que encontrei.



sexta-feira, 8 de setembro de 2017

É a inflação! Uma olhada nas crises políticas e na inflação.

Várias pessoas estão confusas com a passividade da população diante dos escândalos envolvendo políticos que continuam aparecendo em doses semanais. Só nesta semana vimos um apartamento cheio de dinheiro que foi associado a um dos homens forte do presidente Temer, Dilma e Lula denunciados duas vezes pelo Procurados Geral da República e Palocci reforçando o imenso clube dos acusadores do ex-presidente que acreditou ter refundado o Brasil. Isso tudo e ainda nem saímos dos inquilinos do Palácio do Planalto. Podemos colocar ainda as autoacusações do dono da JBS e principal beneficiário das ações do BNDES, os rolos de um procurador que trabalhava diretamente com Janot e um sem número de outras denúncias, investigações e prisões. Em um certo momento parecia que até o STF ia entrar na dança.

Com tudo isso por qual razão não vemos o povo nas ruas? Não creio que exista uma resposta única, vários fatores de naturezas distintas devem ser considerados. Como um economista interessado em política vou tentar apresentar um fator que me parece relevante: a inflação. Muita gente considera o desemprego o maior flagelo econômico, de fato o desemprego é cruel, a perda de parte da renda de uma família pode ter efeitos devastadores e de longo prazo. Porém, por pior que seja, o desemprego atinge muito os que perderam o emprego e muito pouco, em alguns casos nada, os que continuaram empregados, a inflação, por sua vez, atinge todo mundo. Empregados, desempregados e mesmo os que estão fora da força de trabalho sofrem com a inflação. A conta do supermercado crescendo a cada mês enquanto o salário, a pensão, a bolsa ou qualquer que seja a renda da família fica no mesmo lugar é desesperador. Abandonar hábitos porque o salário não chega mais ao final do mês é duro.

Na década de 1950 Alvarenga e Ranchinho registram o drama da inflação cantando “Tá Tudo Subindo”, a música começava com os versos:
“Do jeito que nós vai indo 
Com as coisa tudo subindo
Eu num sei como há de ser
Pra falar a verdade, moço
Essa vida tá um osso
Bem duro da gente roer”
A inflação medida pelo IGP-DI foi de 13,4% em 1950, ano em que Vargas foi eleito, caiu para 11,4% em 1952 e depois disparou chegando a 21,6% em 1953 e 25,1% em 1954, até então o maior valor observado tinha sido 23,7% em 1946 com queda drástica em 1947 quando ficou em 2,2%. Dois anos seguidos acima de 20% era novidade, vale notar que neste mesmo período a crise política aumentou culminando no suicídio de Vargas em 1954. Na primeira grande política do pós-guerra lá estava a inflação, “as coisas tudo subindo” e vida transformada em osso duro de doer não estavam apenas vendo de camarote a queda de Vargas, talvez tenham até subido ao palco.

Saiu Vargas, entrou JK e inflação continuou a subir. A instabilidade política continuou, desde a posse JK conviveu com ameaças de rebelião, mas conseguiu terminar o mandato. O mesmo não pode ser dito dos sucessores dele, Jânio renunciou e João Goulart foi deposto. Em 1961, ano da renúncia de Jânio, a inflação passou pela primeira vez de 50% ao ano. Na sequência a inflação foi aumentando e a crise política foi se agravando. Em 1964 a inflação chegou a 86,5%, neste mesmo ano foi dado o Golpe de Estado que tirou Goulart do Planalto e iniciou um novo período na história brasileira. A população que tinha ido às ruas contra Goulart ficou em casa na sequência do Golpe, talvez aliviada com a queda inflação para 36,1% já em 1965.

Com uma ditadura no poder a pressão da população contra a inflação, não por acaso também conhecida como carestia, ficou mais difícil. Mesmo assim o governo se esforçou para controlar a inflação que, apesar de absurdamente alta, caiu para 16,3% em 1973. Em 1974, na sequência do Choque do Petróleo, a inflação pulou para 34,1%. Assim começava o governo Geisel, um governo em que a inflação aumentou enquanto ganhava força a revolta contra o regime, a abertura lenta e gradual talvez tenha ganho um empurrãozinho da inflação. Figueiredo começa seu governo em 1979 com inflação de 79%, muito alta, mas ainda menor que a de 1964. Durante o governo dele a inflação acelera e chega a 212% em 1983, mais que o dobro da de 1964. A transição lenta e gradual que já tinha virado anistia ampla, geral e irrestrita não foi mais capaz de segurar a população que foi para as ruas pedir “Diretas Já”, movimento que conquistou o país em 1984, ano que a inflação foi de 227%. Mais uma vez o povo na rua coincide com a disparada da inflação.

Chega a Nova República e a inflação aumenta cada vez mais rápido. O Plano Cruzado faz com que a inflação caia para 60,1% em 1986 e transforma Sarney numa espécie de Rei do Brasil. O amor se transforma em ódio quando a inflação volta e já em 1987 chega a 431%. Talvez a Assembleia Constituinte de 1988 tenha segurado os ânimos no ano que inflação chegou passou de 1000% pela primeira vez e os vários movimentos “Fora Sarney” que existiam na época tenham sido derrotados. Sarney termina o governo de forma melancólica e no seu lugar chega Collor, o primeiro presidente eleito pelo voto direto desde a década de 1960. Em março de 1990 Collor toma posse com um plano para lá de desastrado para combater a inflação, por desastrado que tenha sido o Plano Collor a inflação caiu de 1216% em 1990 para 496% em 1991, mas a queda foi breve, em 1992 a inflação já era de 1167% e o povo foi para as ruas puxado pelos jovens estudantes de caras pintadas e pediu a saída de Collor. Pediu e conseguiu, Collor, o primeiro presidente eleito diretamente desde a década de 60, sofreu um impeachment.

Itamar chega com pressão para acabar com a inflação, mas em 1993 a inflação chegou a 2851%. O governo Itamar estava ameaçado, inclusive com pedido de impeachment protocolado pelo PT. Dois impeachments seguidos pareciam demais e Itamar teve folego para chegar a 1994 com o Plano Real. Em 1994 a inflação foi de 908%, em 1995 foi de 15% e por muito tempo a inflação ficou abaixo de 15%. O resultado foi que Itamar elegeu FHC, que tinha sido ministro de Itamar e era visto como criador do Plano Real, no primeiro turno. Em 1998 FHC concorreu à reeleição, a inflação medida pelo IGP-DI era 1,83% ao ano, FHC foi novamente eleito no primeiro turno, feito que nem Lula no auge da popularidade conseguiu repetir. No segundo governo de FHC a inflação voltou, em 1999 o IGP-DI foi de 27%, a população começou a abandonar FHC e o PT entrou com pedido de impeachment. A primeira fase do Plano Real acabou, Armínio Fraga foi para o Banco Central e implementou o regime de metas de inflação, em 2000 o IGP-D tinha caído para 9,5% e o governo respirou. A folga foi breve, em 2002 a inflação voltou para 27% e o homem que ganhou duas eleições em primeiro turno não conseguiu fazer o sucessor e foi transformado em uma espécie de inimigo público pelo governo que o sucedeu. Mais uma vez a inflação alta andou junto com mudanças na política.

Lula chegou e priorizou o combate à inflação. Colocou Meirelles, um homem que vinha do mercado financeiro na presidência do Banco Central, e o bancou mesmo contra o Vice-Presidente da República no esforço de redução da inflação. Em 2005 a inflação foi de 1,4%, em 2006 foi de 3,6% e mesmo com o Mensalão nos jornais Lula foi reeleito. Em 2009 o IGP-DI tem o único valor negativo da série, é verdade que foi para 11,2% em 2010, mas muito desta variação estava ligada a ajustes da crise de 2008 e não chegou ao consumidor, naquele ano o IPCA foi de 5,9%. Lula faz sua sucessora e ela resolve colocar crescimento como prioridade. O resultado desastroso é conhecido por todos, o crescimento não chega a inflação cresce. Em 2015 o IGP-DI chega a 11,2%, desta vez a conta chegou no consumidor e o IPCA chega a 10,7%, a última vez que o IPCA tinha passado de 10% tinha sido em 2002, o ano que Lula foi eleito. Longe de uma mudança de governo e com a inflação em alta a população foi às ruas pedindo a saída de Dilma que, como Collor, sofreu impeachment. Mais uma vez a crise política andou junto com a inflação. A figura abaixo ilustra a histórica que contei, repare que uma das grandes crises políticas é precedida por um aumento significativo da inflação.




Antes que alguém tire conclusões apressadas reforço que não é objetivo desse post dizer que a inflação sozinha explica as grandes crises políticas. Bem mais modesto que isso o post tem como objetivo mostrar que inflação é um dos ingredientes que levam a grandes crises políticas. Talvez a falta desse ingrediente ajude a explicar porque Temer não é alvo de protestos de rua, se for verdade que fique de lição para os próximos presidentes.


sábado, 2 de setembro de 2017

Contas Nacionais do Segundo Trimestre de 2017: Ainda sem festa, mas com alguma esperança.

Ontem foram divulgadas as contas nacionais relativas ao segundo semestre de 2017 (link aqui). Comparado ao trimestre imediatamente anterior e ao mesmo trimestre do ano anterior o PIB apresentou crescimento de 0,2% e 0,3%, respectivamente. A notícia é boa, principalmente por ser a segunda vez seguida que o PIB cresce em relação trimestre anterior depois de uma sequência de quedas. Na comparação do acumulado do ano com o acumulado do ano anterior o PIB ficou parado, ou seja, estamos onde estávamos no primeiro semestre de 2016, o que significa que recuperamos a queda do segundo semestre de 2016, mas não passamos disso. Se compararmos os quatro últimos trimestres com os quatro trimestres anteriores a queda é de 1,4%, ou seja, ainda não recuperamos a queda dos últimos trimestres do governo Dilma. A figura abaixo ilustra esses números.




Para entender melhor o que está acontecendo e até que ponto estamos mesmo testemunhando a saída da recessão é necessário olhar os números com mais detalhes. A figura abaixo mostra a decomposição da taxa de crescimento do PIB em relação ao trimestre imediatamente anterior. Repare que a agropecuária, que puxou o crescimento no trimestre anterior, não cresceu neste trimestre. De certa forma é um resultado surpreendente, pois por conta do crescimento significativo no trimestre anterior a expectativa era de queda neste trimestre. Tal expectativa fez com que vários analistas projetassem queda no PIB para este segundo trimestre. A indústria encolheu 0,5% e os serviços, que respondem pela maior parte do PIB pela ótica da produção, aumentou 0,6%. Esses números sugerem uma recuperação que pode antecipar uma retomada no crescimento. Ao que parece começamos a caminhada para voltar para onde estávamos antes da crise, nesse momento o esperado é que o setor de serviços lidere o processo. Isso também é consistente com a recuperação do emprego, dado que o setor de serviços é o que mais emprega no Brasil.




Pelo lado da demanda o destaque vai para o consumo das famílias. Parte do aumento do consumo pode estar relacionada a melhora no salário real devida a trajetória de queda da inflação e/ou a liberação de recursos do FGTS. O investimento continua caindo, o que é preocupante, mas caindo menos. Também é possível ver o resultado do esforço fiscal, se não estamos vendo uma queda no gasto a queda no consumo do governo pelo segundo trimestre consecutivo é um sinal que paramos com o ajuste onde o governo consome mais e as famílias apertam o cinto que ocorreu em períodos anteriores. A minha leitura dos números é que eles são compatíveis com uma recuperação puxada por serviços que já tem efeitos sobre consumo, mais ainda não se reflete no investimento. Não é o sonho da maioria dos economistas, mas pode ser o começo de uma recuperação sólida. A última coisa que precisamos é um ciclo de alta de investimento empurrados por subsídios que vai desaguar em uma nova crise. Primeiro é preciso crescer com mais gente trabalhando e/ou com os que estão trabalhando gerando mais produtos, depois, a medida que as máquinas que estão desligadas voltem a funcionar é que se espera a compra de novas máquinas, ou seja, o aumento do investimento é posterior a recuperação via emprego e/ou produtividade do trabalho. Nesta perceptiva é bastante razoável que o crescimento esteja vindo dos serviços.

A figura abaixo mostra a comparação do segundo trimestre de 2017 com o segundo trimestre de 2016. Esses números dão uma perspectiva de prazo maior que os anteriores pois são afetados pelo aconteceu no segundo semestre de 2016 e no primeiro trimestre deste ano. Na ótica da produção é possível ver o excelente desempenho da agropecuária e a queda da indústria. Parte desta queda veio dos períodos anteriores, mas, como pode ser visto na figura anterior, também houve queda neste trimestre. O destaque negativo da indústria foi a queda de 7,0% na construção, essa queda foi fundamental para chegarmos a queda de 2,1% no período. A indústria de transformação, aquela que tira o sono dos desenvolvimentistas, caiu 1% em comparação ao segundo trimestre de 2016. Quem realmente evitou uma queda maior da indústria foi o crescimento de 5,9% da extrativa mineral, um setor que costuma ser melhor explicado por eventos externos do que internos. Os dados pela ótica da despesa reforçam a tese que estamos trocando o ajuste via sacrifício de consumo das famílias por um ajuste via sacrifício do consumo do governo, ponto para a equipe econômica. A queda no investimento é preocupante, mas deve ser vista como na análise no final do capítulo anterior, ou seja, não devemos forçar o investimento.




A análise dos dados que comparam os quatro últimos trimestres com os quatro trimestres anteriores, dados que são mais influenciados pelo final do governo Dilma, reforça os resultados anteriores. Destaque para o crescimento da agropecuária quando olhamos pela ótica da produção e com o ajuste no consumo das famílias mais intenso que o ajuste no consumo do governo quando olhamos pela ótica da demanda. Boa parte do ajuste do consumo do governo, vale lembrar, ocorreu nos últimos trimestres. Os números estão na figura abaixo.




O processo de recuperação fica mais evidente na análise de longo prazo. A figura abaixo mostra o crescimento do trimestre relativo ao mesmo trimestre do ano anterior desde 1996. Nela é possível ver que após o longo período de queda iniciado em 2014 a taxa de crescimento volta a ser positiva. Pequena, é fato, muito pouco para relaxar, mas considerando o desastre deixado pelo governo Dilma já podemos ter esperança. Para que a esperança não vire frustração é fundamental que o governo tenha paciência e espere que a recuperação ocorra em ritmo natural, é particularmente importante não cair na tentação de forçar o investimento para acelerar o crescimento. Tenho certeza que a equipe econômica sabe disso e vai fazer o possível para manter a recuperação nos trilhos, espero que a equipe política segure a onda.




quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Um ano de impeachment: há motivos para festa!

“Mas além de esgotos, medicina, educação, vinho, segurança pública, irrigação, estradas, água potável e saúde pública, que mais os romanos fizeram por nós?”. A pergunta é de uma cena clássica do Monty Python que está no filme a Vida de Brian onde o líder de um grupo rebelde da Judeia tentar animar seu grupo enquanto planeja um ataque a Pilatos. Não tenho como não lembrar da cena quando vejo pessoas perguntando o que ganhamos com o impeachment de Dilma além de punir uma presidente que desrespeitou a lei, abaixar a inflação, aprovar o teto de gastos, colocar para andar a reforma da previdência, aprovar na Câmara uma medida que dá transparência a subsídios, começar a desmontar um conjunto de políticas que nos levou a maior crise de nossa história, reduzir os juros, não saber de profissionais que perderam o emprego porque incomodaram o governo, não ler o Ministro da Fazenda chamando de terrorista quem criticava os números delirantes do Planalto e aprovar mudanças na lei trabalhista. É duro de reconhecer, mas além do que está nesta lista não ganhamos muito com a saída de Dilma, talvez a recuperação da economia, mas ainda está cedo para dizer isso e amanhã devemos ter notícias ruins sobre o PIB.

É verdade que falta muito, mas não vejo como negar que estamos melhor com o vice de Dilma do que com Dilma. Sim, aquele áudio foi de lascar e o governo Temer deveria ter acabado na noite em que o distinto público tomou conhecimento da conversa entre Temer e Joesley Batista. É mais do que justo que não queiramos ser governados por um sujeito que ajudou a prolongar a permanência do PT no Planalto e que tem aquele tipo de conversa com empresários enrolados com a justiça. Mas isso não permite negar que o governo de Temer colocou para andar muitas reformas importantes, conseguiu aprovar mesmo que parcialmente algumas destas reformas, colocou o holofote no problema fiscal e parou de tentar transformar em inimigo público quem mostrava números e tendências desagradáveis para o Planalto. Isso para não falar na queda e estabilidade da inflação que é o principal trunfo do atual governo.

Em abril de 2016, último mês completo de Dilma no governo, o IPCA acumulado em doze meses estava em 9,27%. Em maio Dilma foi afastada e em 31 de agosto, um ano atrás, Dilma saiu do cargo. Em agosto de 2016 o IPCA acumulado em doze meses foi de 8,97%, até aí uma queda esperada dado o forte ajuste de preços administrados em 2015, ajuste que, vale lembrar, teve de ser feita por conta de uma desastrosa política de controle de preços usada no primeiro mandato de Dilma. Se a queda para cerca de 8% era esperada o que veio depois não me parece ter sido possível sem o afastamento de Dilma. Ainda em 2016 a inflação ficou abaixo de 6,5% por conta de uma reversão de trajetória que ocorreu no segundo semestre de 2016. Em julho deste ano, último dado disponível, o IPCA acumulado em doze meses estava em 2,7%. Alguns dizem que a queda foi por conta da recessão, porém não explicam a mudança brusca de trajetória na sequência da mudança do governo e da direção do Banco Central. A figura abaixo ilustra esse descolamento da trajetória ocorrido no segundo semestre de 2016. Ainda no campo da política monetária também foi possível iniciar uma trajetória de queda da taxa de juros sem pressionar a inflação, pelo contrário, a inflação caiu. O contraste entre a atual política monetária e a desastrosa redução forçada de juros feita por Dilma é didático.




Se no campo da política monetária os avanços dos últimos doze meses são evidentes o mesmo não pode ser dito da política fiscal. Aqui vimos muito esforço e pouco resultado. A aprovação do teto de gastos simboliza a situação, a estratégia do governo bateu a histeria criada pela oposição com invasão de escolas e universidades e discursos sobre o fim do mundo, porém o déficit primário continuou aumentando o discurso de cortes de gastos não é visível nos números. Quando muito temos estabilidade dos gastos, pior, sem a reforma da previdência será praticamente impossível reduzir gastos e talvez até mesmo respeitar o teto de gastos fique fora do alcance dos futuros governos. Porém, ao contrário do governo anterior que falava muito e não mostrava nada, o atual governo mandou uma proposta de reforma para o Congresso. Podemos acusar o governo de não ter conseguido aprovar a reforma, mas não podemos acusá-lo de ser omisso nem de não mostrar compromisso com tal reforma. A figura abaixo compara o gasto no primeiro semestre de cada ano e deixa clara a necessidade de ajustar a previdência, repare que além de pagar por não ter feito a reforma da previdência o governo, minto, o pagador de impostos, paga por conta dos aumentos a algumas categorias de servidores públicos concedidos por Temer em 2016




No campo das reformas de longo prazo o grande feito foi a MP 777 que acaba com a TJLP e cria a TLP. Com esta medida os subsídios distribuídos pelo BNDES terão de ser discutidos no Congresso. Pode parecer pouco, principalmente para quem entrou no debate mais recentemente, mas é uma vitória formidável. Ter os valores de tais subsídios nas leis orçamentárias é mais do que eu esperava do atual governo, mas a MP 777 foi além, os recursos para subsídios disputarão orçamento com outros programas como os voltados para saúde e/ou educação e o Bolsa Família. Imaginem se durante os anos Lula e Dilma tivéssemos tido a oportunidade a cada de ano de mostrar para o público o quando o governo estava propondo para o Bolsa Família e o quanto estava propondo para o Bolsa Empresário? Teria sido muito mais difícil para o PT bancar o discurso de inimigos da elite. Mas não para aí, a MP 777 aponta na direção de dois problemas que andam juntos no Brasil: o compadrio entre políticos e empresários financiadores de campanha e a má alocação de investimentos. A TLP pode ser o começo do ciclo de reformas necessárias para destravar a produtividade.

Foco na economia porque é onde fico mais confortável, mas não posso deixar de registrar que o impeachment de Dilma atrapalhou os planos de poder de um partido que tem em tipos como Maduro e Castro exemplos de liderança e democracia. Conheço caso de pessoas que perderam o emprego e/ou foram perseguidas por dizer coisas que incomodavam o Planalto. O estilo beligerante das equipes econômicas de Dilma podia ser sinal do que estava no horizonte, pessoas que faziam previsões que se mostravam otimistas quando comparadas a realidade, mas que eram pessimistas em relação ao mundo delirante do pessoal do governo eram chamados de ignorantes, terroristas, inimigos do povo e coisas do tipo. Jornalistas eram colocados em listas negras por repercutir números ou notícias que não referendavam o mundo maravilhoso da propagando estatal. Tudo isso reforça minha sensação que escapamos de um destino sombrio como o que chegou na Argentina ou até pior. A Venezuela não estava tão distante.

Deixo para o final o que considero o aspecto mais importante do impeachment de Dilma: a vitória da lei sobre o governante. Por certo não foi uma vitória definitiva, em vários outros casos que aconteceram antes, durante e depois do governo Dilma vimo governantes vencendo a lei, casos assim abundam nas páginas dos jornais, mas, mesmo sem ser definitiva, foi uma vitória importante. Aqui peço que não me entendam mal, não sou exatamente um tipo legalista, entendo que a relação entre a lei e os governados é de natureza diferente da relação entre a lei e os governantes. Em qualquer tirania existem leis que regulam a ação dos cidadãos, mesmo em regimes absolutistas sem pretensão de império da lei existem leis que proíbem roubar, matar, ficar nu em público ou sonegar impostos. Da maneira como vejo as coisas tais leis estão em um campo diferente das leis que regulam a ação dos governantes. Desrespeitar a lei que rege os governados é um atentado a lei que em alguns casos pode ser justo, moral e desejável. Desrespeitar a lei que rege os governantes é desrespeitar o império da lei, o que costuma terminar muito mal. Os barões ingleses não fizeram uma revolução para criar leis para punir ladrões comuns, isso já existia, os barões fizeram uma revolução para limitar o poder do rei.

Dilma usou de fraude fiscal para gastar mais do que o autorizado pelo Congresso sem ter de pedir autorização do Congresso. Isso é um crime do governante contra a lei. Mesmo assim Dilma não seria punida por conta de uma interpretação da lei que determina que um governante não pode ser punido por crimes cometidos no mandato anterior. Confiante por ter escapado da punição Dilma repetiu a manobra em 2015 e novamente usou de fraude fiscal para driblar o limite orçamentário imposto pelo Congresso. Cada um que diga e pense o que quiser, na minha leitura manter Dilma no cargo seria equivalente a determinar que o Congresso não teria mais poderes para limitar os gastos do presidente. No que tange ao gasto governo, um elemento fundamental para limitar o poder do Planalto, teríamos substituído o Império da Lei pelo Império do Governante. Na minha avaliação isso não ter acontecido é motivo suficiente para comemorar um ano do impeachment, mas não foi só isso, tem todas as outras coisas da lista.