quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Onde foi que eu errei?

Hoje o IBGE divulgou que a economia brasileira cresceu 2,3% em 2013. O número é um pouco maior do que eu esperava, não que eu seja particularmente pessimista, de acordo com reportagem do Estadão as estimativas do mercado variavam entre 2,07% e 2,3% com mediana de 2,2%. Isto significa que metade das estimativas estava entre 2,07% e 2,2% e a outra metade entre 2,2% e 2,3%. Quando me perguntam qual a estimativa de crescimento costumo responder a mediana do mercado, no caso seria 2,2%, faço isto porque não trabalho no dia e dia do mercado e, portanto, não tenho estimativas precisas. Mas se alguém insistir em saber minha opinião, eu respondo que a taxa de crescimento deve ficar entre 1,5% e 2%. É um intervalo largo, eu sei, mas estes valores não estão fundamentados em números constantemente atualizados nem em modelos econométricos sofisticados.

Faço meu cálculo a partir da taxa de crescimento da produtividade e da participação da renda do trabalho na renda total. Depois tempero com minhas observações da economia, se eu vejo espaço para crescimento via emprego e perceber que o governo está disposto a fazer isto eu coloco um pouco para cima. Se eu vejo o governo fazendo muita bobagem eu coloco mais para baixo. Desta forma meu número estaria mais para baixo do que para cima, mais perto de 1,5% do que de 2%. O ocorre que o número ficou maior que a mediana do mercado, os tais 2,2%, e maior que o limite superior do meu intervalo, que é de 2%. Onde foi que eu errei?

Para que eu entenda onde errei precisei olhar nos números, claro que ainda vou olhar com mais cuidado, mas o que vi já ajuda a explicar. Ocorre que para explicar onde errei preciso antes falar um pouco sobre como o PIB é calculado. Vou fixar na ótica da produção, no final falo rapidamente sobre a despesa, especificamente sobre o investimento. Pela ótica da produção o PIB é calculado como a soma do valor em reais do que foi produzido para uso final nos diversos setores da economia. Para fins de divulgação ampla o IBGE trata apenas de três setores: agropecuária, indústria e serviço. A soma destes valores é o que o IBGE chama de valor adicionado a preços básicos, para chegar ao PIB a preço de mercado, este que sai no jornal, são somados os impostos e descontados os subsídios. A história é mais complicada e rica em detalhes, mas não quero transformar meu post em um curso de Contas Nacionais, para oque segue estas definições são suficientes.

O valor adicionado a preços básicos, ou seja, o que foi efetivamente produzido cresceu 2,1%, bem mais perto do meu intervalo, o crescimento de 3,3% nos impostos líquidos foi quem levou a taxa de crescimento para 2,3%. Quisesse eu usar uma versão refinada da estratégia do pombo enxadrista parava aqui dizendo que errei por 0,1% e sairia para o Carnaval, afinal minha estratégia de previsão não trata de aumento do PIB via aumento de impostos. Mas não farei isto, como disse anteriormente, para este ano eu esperava um crescimento abaixo de 2%. Logo não foram os impostos os culpados pelo meu erro. Tenho de procurar em outro lugar.

O próximo passo é olhar o que aconteceu em cada setor. Pelos números de 2013 a agropecuária corresponde a 5,72% do valor adicionado a preços básicos, a indústria a 24,88% e os serviços a 69,4%, note que estas participações não são referentes ao PIB. A taxa de crescimento dos serviços foi de 2%, a indústria cresceu 1,3% e a agropecuária cresceu 7%. Achei meu erro! Minha técnica de calcular crescimento é mais apropriada para indústria e serviços, excluindo o setor agropecuário o valor adicionado teria crescido 1,8%, bem dentro do meu intervalo e claramente abaixo de 2%. Dado que o crescimento do ano passado foi muito baixo a distorção estatística seria suficiente para me deixar em posição confortável.

De forma geral não considerar com cuidado a agropecuária não gera grandes erros, afinal estamos de falando de pouco mais de 5% do valor adicionado e de 4,8% do PIB. Mas um ano em que a agropecuária cresce mais que o triplo dos serviços e mais de cinco vezes o crescimento da indústria não é exatamente um caso geral. Olhando os números mais de perto é possível entender o que aconteceu. Os destaques do setor foram soja (24,3%), cana de açúcar (10%), milho (13%) e trigo (30,4%) na outra ponta houve queda na laranja (-14,8%) e na mandioca (-9,5%).

Perceberam que salvou o dia e ainda me fez errar? O agronegócio exportador, o mesmo que é hostilizado diariamente por movimentos de sem terras e ambientalistas. Aqueles que vivem sob a ameaça de perder terras e plantações por conta de invasões e de leis ambientais. Aqueles que são acusados de usar trabalho em condições análogas à escravidão quando não cumprem uma lista absurda de regulações trabalhistas, aliás, como ficam os que defendem que o governo deve ignorar a lei trabalhista quando o assunto é o interesse nacional? Como ficam os setores que de dentro do próprio governo acusam o agronegócio de prejudicial ao país? Os que pedem tudo para indústria e nada para o campo? Errei, é fato, mas poucas vezes estive tão feliz por errar. O agronegócio mostrou que contra (quase) tudo e contra (quase) todos é capaz de puxar o crescimento brasileiro.


terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

1994

O assunto do dia hoje foi o discurso de FHC a respeito dos 20 anos do Plano Real. Pensei em fazer um post mais técnico sobre o Plano Real, mas decidi que não, tanto os autores do Plano quanto os que o implementaram e o administraram estão vivos e podem explicar o Plano de forma muito melhor do que eu. Gustavo Franco, Pedro Malan, Pérsio Arida, André Lara Rezende, Edmar Bacha e, claro, Fernando Henrique Cardoso estão aí firme e fortes dando palestras e escrevendo sobre o Plano que mudou o Brasil. Desta forma optei por dar um depoimento pessoal sobre como era o mundo em 1994 na perspectiva de um estudante de economia, vindo do Ceará e fazendo o segundo ano do mestrado na Escola de Pós-Graduação em Economia da Fundação Getúlio Vargas no Rio de Janeiro, também conhecida com EPGE.
Naquele tempo a hiperinflação fazia parte da vida de todos os brasileiros, mesmo vivendo com a renda de bolsista eu costumava aplicar o valor da bolsa no Overnight e usava cartões de crédito para adiar meus pagamentos por até 45 dias. Era uma época que ainda não existia internet no Brasil e tanto as aplicações quanto as compras de cartão de crédito eram feitas com papel. Na prática isto implicava que, por exemplo, no início de cada tremeste tínhamos que descer na agência do banco antes das quatro da tarde, fazer a aplicação e depois das cinco pegar o metrô para comprar os livros na Interciência de forma que o papel do cartão fosse preenchido depois do expediente, com sorte teríamos os tais 45 dias até o pagamento. Parece outro mundo? Era outro mundo.
Os sucessivos fracassos dos choques heterodoxos tinha deixado no ar uma desconfiança com planos econômicos e economistas em geral. As conversas eram que viveríamos sempre com inflação até porque o bancos não permitiram o fim da inflação, ironicamente hoje os bancos são acusados de não permitir a redução da taxa de juros. Existiam teorias das mais diversas para explicar inflação: fenômeno cultural, luta de classes, economia oligopolizada, inflação inercial e todo um aparato de explicações heterodoxas para inflação brasileira, a possibilidade que a inflação brasileira resultasse de um descontrole monetário e fiscal era vista com desconfiança. O Brasil era diferente. Só economistas ortodoxos poderiam acreditar que a inflação brasileira tivesse as mesmas causas que a inflação em outros países. Eu estava no lugar onde estavam os economistas ortodoxos. Não estava lá por acaso, quando correu a notícia que eu iria para EPGE meu professor e hoje amigo Flávio Barreto me chamou e falou: vão te dizer para não ir para EPGE, vão dizer que é uma escola de engenheiros e que com sua classificação da ANPEC você pode ir para USP, UFRJ ou Unicamp, ouça tudo, não tente argumentar e vá para EPGE. Foi o que fiz. Até hoje tento passar a frente este conselho do Flávio.
Na EPGE fiz os cursos obrigatórios de macroeconomia com o Renato Fragelli, Mario Henrique Simonsen (que por problemas de saúde saiu no meio do curso) e com o Fernando Holanda. Os dois primeiros eram cursos de IS-LM-BP, o Fernando Holanda abordava modelos dinâmicos, porém sem otimização. Para estudar otimização intertemporal em tempo discreto era preciso fazer o curso do Alosio Araujo, só fui ver aplicações de otimização intertemporal em macro no segundo ano com a checada do Pedro Ferreira, que acabou sendo meu orientador. Desta forma o que se chamava economia ortodoxa na época não eram os modelos RBC ou novos-keynesianos de hoje, eram o modelo IS-LM-BP de inspiração keynesiana. Não vou nem tentar descrever o que eram os heterodoxos da época, basta dizer que acreditavam que congelamento de preços podia acabar com a inflação, tese parcialmente aceita até por alguns ortodoxos da época. Era realmente outro mundo.
Foi neste ambiente que apareceu o Plano Real. Para quem tinha sido aluno do Fernando Holanda era impossível não perceber a semelhança entre o Plano e a lições de Thomas Sargent no clássico artigo "The Ends of Four Big Inflations". Era espantoso, só tínhamos visto modelos de expectativas racionais em uma parte de um dos cursos de macroeconomia, justamente o do Fernando Holanda. Como entender aquele Plano sem congelamento de preços e sem referências explícitas ao modelo IS-LM? Minha reação foi começar a ler tudo que podia a respeito de macroeconomia das expectativas racionais e seguir uma estrada que me levou aos modelos RBC. Mas não foi por aí que os debates seguiram.
As discussões primeiro diziam respeito a se o Plano Real seria mais um fracasso ou se funcionaria, Reinaldo Azevedo fez uma coletânea de depoimentos da época afirmando que o Plano Real daria errado. Não é de se espantar tanto ceticismo, se na EPGE, templo da ortodoxia, mal se via a macroeconomia de Chicago que dirá fora da EPGE. O Plano Real estava muito a frente do tempo da academia brasileira, muito mesmo. Mas na EPGE o Plano foi bem recebido. Lembro que o Mario Henrique Simonsen quando se despediu da direção de ensino da EPGE nos falou que com o fim da inflação teríamos de ganhar a vida honestamente, ou seja, não teríamos os ganhos fáceis de um sistema financeiro em um país com hiperinflação. Dois temas eram particularmente discutidos: a necessidade de disciplina fiscal para manter a inflação sob controle e a possibilidade de fixar o câmbio por lei nos moldes da Argentina. O primeiro tema estava relacionado a discussão de Thomas Sargent e Neil Wallace em "Some Unpleasant Monetarist Arithmetic", qual seja, sem disciplina fiscal o controle da política monetária não é suficiente para evitar a inflação. O segundo tema tratava da discussão de quanto de autonomia o Banco Central devia abrir mão, os defensores do modelo argentino argumentavam que transformar o BC em uma Caixa de Conversão e abrir mão da política monetária era a única maneira de conseguir a credibilidade necessária para manutenção do Plano Real. O debate foi ganho pelos que defendiam um regime mais flexível que permitisse algum controle do BC sobre a política monetária. Minha referência para esta discussão é o texto do Aloisio Araujo e do Cypriano Feijó chamado "Bandas de Câmbio: Teoria, Evidência Empírica e sua Aplicação para o Brasil". Nesta época me convenci que o Plano Real era mesmo diferente e daria certo.
Acompanhei o desenrolar do Plano com o interesse possível a um estudante de economia que gostava de macroeconomia, estava confiante no Plano, mas que tinha de defender uma dissertação e preparar aplicações para o doutorado no exterior. Quando voltei ao Brasil o Plano Real era um sucesso indiscutível, FHC estava indo para o segundo mandato e a discussão estava focada no regime cambial. O debate era entre os que defendiam um regime de câmbio flexível e os que defendiam a manutenção do controle de câmbio, o antigo regime de bandas se tornara quase um regime de câmbio fixo. Fiquei do lado dos que pediam câmbio flexível, mas esta é outra história.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

De Caracas a Kiev com escala em Guernica

Tenho falado muito sobre a Venezuela e pouco sobre a Ucrânia, não é por acaso. Gosto de ler sobre cultura, política e história da América Latina além de acompanhar as economias da região como parte de minha agenda de pesquisa. Isto seria motivo sufiente para que eu me sinta mais confortável falando sobre a Venezuela do que sobre a Ucrânia. Mas a coisa é mais complicada. O que está acontecendo na Venezuela não é nada novo. Chávez foi mais um caudilho populista que tiranizou um povo de nuestra América, mais um entre muitos "ridículos tiranos" que assolam a América Católica. Maduro é apenas o sucessor do Chavismo, um tirano que nem sequer tem o carisma dos líderes populistas. O povo da Venezuela vai sofrer, em algum tempo vai se livrar do bolivarianismo e depois vai saudar outro tirano, se der sorte menos brutal. É o ciclo interminável dos países latino americanos que abrigam estirpes condenadas não a cem, mas a mil anos de solidão. Brasil, Argentina, Colômbia, México, Venezuela, Chile e outros seguindo sempre a mesma história já tantas vezes lida.
Na Europa é diferente, não que o que está acontecendo na Ucrânia seja algo novo. Desde sempre a Ucrânia esteve na linha de fogo entre a Rússia e as potências dominantes da Europa. O leste europeu tem tanto potencial explosivo quanto o Oriente Médio. São muitas etnias, culturas e nações para poucos estados e territórios. Seria tolice pensar que a Rússia se acomodaria em uma posição subordinada depois do naufrágio da desastrosa experiência bolchevique, cedo ou tarde a grande Rússia daria sinais de vida. Infelizmente o problema não para por aí, a Europa ainda não conviveu cinquenta anos em paz com uma Alemanha unificada e forte. A própria unificação da Alemanha se deu no rastro da Guerra Franco-Prussiana em 1870-71, na sequência vieram as duas guerras mundiais e separação da Alemanha, que só voltou a se unificar na década de 1990. Como vai ser a convivência entre a Grande Alemanha e a Grande Rússia? Mais a oeste temos a Espanha e suas eternas tensões e ameaças separatistas. Bobagens? Nenhuma relação com Alemanha e Rússia? Cada um acredita no que quer, apenas lembro aos amigos que a Guerra Civil Espanhola terminou em 1939, coincidência?
Não seriam então os eventos na Ucrânia apenas a mesma história tantas vezes lida, só que na Europa. Não sei dizer, daí minha timidez em escrever a este respeito. O problema é que a Europa não está condenada à solidão, muito pelo contrário, um drama europeu é um drama mundial. Está além da minha capacidade avaliar se o que ocorre na Ucrânia é algo localizado, se é parte de um novo arranjo do leste europeu necessário, e inevitável, para acomodar a Rússia ou se é parte de uma cadeia de eventos que pode levar a um novo grande conflito na Europa. Sem possibilidades de entender só me resta rezar e torcer para que a União Européia consiga acomodar os conflitos latentes na Europa. Sim, porque muito mais que um desafio econômico, a União Européia é uma esperança geopolítica.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Por que Dilma não conseguiu entregar o PIBão que prometeu?

Todos aqueles que fizeram um curso de introdução a economia estudaram o multiplicador dos gastos públicos, também chamado de multiplicador keynesiano. Os que foram além do curso de introdução a economia e fizeram cursos de macroeconomia aprenderam que o conceito do multiplicador é objeto de intensos debates. Para os que ficaram curiosos sobre as críticas ao multiplicador keynesiano eu sugiro este texto de Robert Barro, professor de Harvard, no WSJ ou uma pesquisa sobre a Falácia da Janela Quebrada, para os que estão com preguiça de fazer a pesquisa recomendo este texto no site do IMB. Feitas as devidas ressalvas voltemos ao multiplicador.
A idéia é simples. Suponha que o governo resolva aumentar o gasto público por meio de compras de bens e serviços. Ao realizar esta compra o governo estará criando demanda. Para atender esta demanda os empresários vão aumentar a produção e, para isto, contratarão mais horas de trabalho. Mais trabalho significa mais salários, que por sua vez significa mais demanda, mais produção e mais contratações. No final o gasto do governo induziu um aumento na renda e na produção bem maior do que o gasto inicial. Se você leu os textos que recomendei acima já sabe os problemas desta lógica, mas peço que guarde estes problemas e siga acompanhando meu argumento. A valer a lógica do multiplicador o governo poderia induzir o crescimento da economia simplesmente gastando mais, não é de admirar que a maioria dos políticos sejam entusiastas das idéias de Keynes. Fazer o bem gastando mais do dinheiro do contribuinte é o sonho de qualquer governante.
Ocorre que esta lógica tem um limite, não falo das críticas dos textos acima, falo de um limite inerente a própria lógica. Para que o multiplicador keynesiano funcione é preciso que exista capacidade ociosa na economia, particularmente é preciso que existam fatores de produção que não estejam sendo utilizados. Em bom português: é preciso que exista desemprego. Vou além, quanto maior o desemprego mais a lógica do multiplicador funciona. É neste ponto que reside a razão do fracasso das políticas econômicas do governo Dilma. Quando o governo aumenta a demanda de uma economia com baixo desemprego o empresário não tem como contratar mais horas de trabalho, pelo menos não ao mesmo preço. O que acontece é que ou o empresário não aumenta a produção ou o empresário vai contratar trabalhadores que estão em outras empresas para aumentar a produção, porém neste último caso ocorrerá uma redução na produção da empresa que perdeu os trabalhadores. Nos dois casos a produção total não aumenta e a demanda criada pelo governo acaba virando aumento de preços pela velha e boa lei da oferta e da demanda. Foi exatamente o que aconteceu no governo Dilma.
A bem da verdade alguns poucos economistas keynesianos argumentam que ao criar demanda em uma economia próxima ao pleno emprego o governo induz os empresários a investir e aumentar a capacidade de produção por meio de novas máquinas e não de novos trabalhadores. Estes economistas formam um subconjunto dos economistas keynesianos heterodoxos e foram os que defenderam a política econômica de Dilma. Estes economistas devem a população uma explicação de porque o gigantesco aumento de demanda nos últimos não levou a um aumento da taxa de investimento no Brasil. Outro grupo de economistas enxerga na disputa por trabalhadores uma forma de aumentar os salários reais, neste grupo se encontram alguns economistas marxistas que não são muitos, mas existem. O problema é que aumentos de salários reais sem aumentos de produtividade costumam não se sustentar no longo prazo. Se o aumento do consumo tivesse levado a um aumento do investimento ainda se podia argumentar que este investimento poderia trazer os ganhos de produtividade necessários para sustentar o aumento dos salários reais. Ocorre que o exemplo recente do Brasil e de outros países da América Latina não sugerem que o aumento do consumo leve ao aumento do investimento.
Em resumo temos que na lógica liberal, incluindo de neoclássicos a austríacos, o multiplicador não existe ou é muito pequeno. Na lógica keynesiana dominante o princípio do multiplicador não se aplica a uma economia próxima ao pleno emprego. Mesmo entre os heterodoxos a idéia de aumentar investimento por meio do estímulo ao consumo é, para dizer o mínimo, controversa. Daí a pergunta que não cala: por que o governo Dilma arriscou a saúde econômica do Brasil em um experimento que não é justificado pela grande maioria dos economistas? Se pelo menos existisse um conjunto robusto de evidências empíricas para compensar a falta de suporte teórico... mas nem isto existe, muito pelo contrário.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

A nota da infâmia!

Hoje o governo brasileiro ajudou a escrever mais uma página na história da infâmia. Diante do que acontece na Venezuela nosso governo assinou uma nota de apoio ao presidente Nicolás Maduro. Nenhuma referência aos assassinatos e as prisões arbitrárias e elogios a atuação do ditador de Caracas. Segue a nota conforme divulgada em O Globo:
“Rejeitamos as ações criminosas de grupos violentos que querem disseminar a intolerância e o ódio na República Bolivariana da Venezuela, como instrumento de luta política. Os estados-membros instam às partes a continuar aprofundando o diálogo sobre as questões nacionais no marco da institucionalidade democrática e no estado de direito, tal e como foi promovido pelo presidente Nicolás Maduro Moros nas últimas semanas”.
Um ponto final no lugar da última vírgula teria feito da nota uma manifestação insossa para o restabelecimento da ordem, estaria no padrão omisso com que o Brasil trata ditadores pelo mundo. O que vem depois da última vírgula torna a nota infame.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Sobre o Adolfo, o IMB e o Constantino, ou sobre liberais e conservadores

Estou acompanhando com interesse os debates desta semana entre liberais e conservadores. Primeiro foi o post do Adolfo Sachsida onde ele afirma que operacionalmente a diferença entre liberais e conservadores se resume a legalização da maconha. Geralmente concordo com o Adolfo, mas neste caso eu discordo. Até acredito que entendi o ponto central do post, qual seja, se um liberal ou um conservador pudesse ditar a política brasileira fariam poucas coisas diferentes dadas as condições atuais do Brasil. Se o ponto central for mesmo este eu concordo, mas o post vai além disto, muito além. Consigo listar uma série de políticas viáveis defendidas por liberais em geral mas que não são aprovadas pela maioria dos conservadores: descriminalização do aborto, liberação de pesquisas com células tronco, casamento gay, adoção por casais gays e definição de família são alguns exemplos.
Depois foi uma discussão que aparece vez por outra mas que vi duas vezes esta semana. Trata-se de uma entrevista de Rodrigo Constantino ao IMB que não foi publicada. Alguns falam de censura e outros da necessidade de ignorar diferenças e tratar apenas do que une liberais a conservadores. Como parto do princípio que censura é coisa do estado não vou nem comentar se existe censura do IMB ou de qualquer órgão privado. Passemos a questão da união. Sou de opinião que cada um deve falar o que quer da forma que lhe convir. Desta forma todas idéias estarão representadas e as que forem defendidas por mais pessoas terão naturalmente mais destaque. Se Olavo de Carvalho, Rodrigo Constantino, o IMB, o IL e o Adolfo resolvem fazer campanha pela privatização ótimo, serão muitas vozes com chances de repercutir. Na outra ponta se o Adolfo pede a manutenção da proibição da maconha e o IMB pede o fim desta proibição tudo bem também, cada um atingirá seu público com suas idéias. Nenhum mal foi feito. Quanto a política a questão é ainda menos relevante, sequer trata-se de discutir uma aliança para uma candidatura viável seja de liberal, seja de conservador. Tudo que podemos fazer neste campo é escolher o esquerdista que menos nos incomoda para votar no segundo turno. Portanto não vejo um motivo para que liberais e conservadores sigam cada um seu caminho se encontrando onde e quando for o caso.
Por fim veio o texto no blog do Rodrigo Constantino com o título "O direito de preferir um filho heterossexual" o texto trata da questão dos valores morais do ponto de vista liberal. Foi o texto que me motivou a escrever este post. Como liberal chato me sinto no direito de ter os valores que eu quiser sem dar satisfações a ninguém. No meu mundo ideal sequer existiria crimes de opinião, cada um acredita no que quer e vive de acordo com suas crenças desde que não agrida a integridade física ou a propriedade dos outros. Não vejo um bom motivo para não considerar liberal quem não goste de fumantes, maconheiros, funkeiros ou de quem use cabelo verde. Não são valores que fazem um liberal, pelo menos não na minha opinião, o que faz um liberal é não tentar usar o poder do estado para impor um conjunto de valores. Sendo assim creio que preferir um filho heterossexual não impede ninguém de ser liberal, assim como ninguém está impedido de ser liberal por preferir um filho gay. O problema começa quando alguém usar o poder do estado para dificultar a vida do filho gay, não importa do que pai se orgulha.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

IPEA coloca produtividade onde deve estar: no centro das discussões.

Não estou entre os acadêmicos mais produtivos de minha geração, longe disto, em parte porque dedico grande parte do meu tempo de trabalho à gestão acadêmica. Não reclamo, é uma escolha minha, mas vez por outra bate uma pequena frustração por estar escrevendo menos do que posso ou do que queria. Compenso no FB, no blog, e participando de seminários e debates sobre economia brasileira. Nestes espaços sempre dou ênfase ao que considero o cerne de minha pesquisa: mensurar produtividade e avaliar seu papel para explicar os movimentos de médio e longo prazo da economia.
Desde 2006 transformei isto quase em um mantra. Praticamente toda minha pesquisa e toda minha participação em debates e seminários giram em torno da produtividade. Fiz algumas provocações, entre elas:
  • Sem crescimento da produtividade o crescimento brasileiro não é sustentável;
  • A baixa produtividade é determinante do baixo investimento e não o contrário;
  • O excesso de burocracia e o ambiente hostil aos negócios são os fatores mais importante para explicar a baixa produtividade;
  • As reformas dos anos 1990 permitiram o crescimento dos anos seguintes e o abandono das reformas comprometeu a continuidade do crescimento;
  • Capital humano é importante mas não é suficiente para resolver o problema da baixa produtividade.
Algumas destas provocações encontraram eco dentro e fora da economia, outras, como a do capital humano, ainda são vistas com desconfiança. Hoje tive um daqueles momentos em que sentimos que nossos esforços não foram em vão. Nas minhas leituras diárias sempre incluo as seções de economia dos principais jornais do Brasil e do mundo, além de revistas especializadas e páginas de institutos de pesquisa na área de economia. Muito do meu trabalho é facilitado pelo FB que me permite ter acesso fácil a algumas destas leituras, foi exatamente no FB que encontrei o link para reportagem da Desafios Econômicos do IPEA sobre produtividade. O primeiro parágrafo dá o tom da reportagem:
"Guarde bem a palavra: produtividade. Ela estará no centro de todas as discussões sobre políticas públicas no Brasil e fará parte das principais preocupações do setor privado em 2014. O norte-americano Paul Krugman, prêmio Nobel de Economia de 2008, explica por que o indicador entrou no radar dos intelectuais e do setor produtivo brasileiro: “A produtividade não é tudo, mas no longo prazo é quase tudo. A capacidade de um país melhorar seu padrão de vida ao longo prazo depende quase inteiramente de sua capacidade de aumentar a produção por trabalhador”."
O maior instituto de pesquisas econômicas do país coloca produtividade no "centro de todas as discussões". A frase do Krugman não é desconhecida de quem frequenta esta blog. Tive a oportunidade de apresentar e participar de seminários deste grupo que trabalha com produtividade no IPEA. É claro que temos algumas divergências, mas gosto de pensar que tenho minha contribuição neste grupo. Mas não para aí, uma das principais referências para a reportagem é o documento da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (SAE/PR): Determinantes da Produtividade do Trabalho para Estratégia sobre Sustentabilidade e Promoção da Classe Média (versão em inglês aqui).
Tive a oportunidade de participar deste estudo e fiz a redação junto com Ricardo Paes de Barro e Diana Grosner. Neste documento tratamos da classe média, da importância dos ganhos de produtividade para a consolidação da classe média e dos caminhos pelos quais se pode chegar aos ganhos de produtividade. Em resumo o documento lança as bases para uma agenda de pesquisa e elaboração de políticas para produtividade no Brasil. O documento foi objeto de intenso debates na Conferência Internacional sobre Sustentabilidade e Promoção da Classe Média, organizado pela SAE/PR e pelo BNDES, da qual tive a oportunidade de participar.
Ver que minha pesquisa teve algum impacto na elaboração de políticas públicas do país e ainda ter a oportunidade de ter participado do processo é o que me fez ganhar o dia e escrever este post. Melhor ainda é saber que continuo trabalhando com os envolvidos na discussão e ainda tenho possibilidade de contribuir com o tema. Posso dizer que tenho uma agenda de pesquisa pequena porém decente.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Para (mais) uma crítica à política industrial.

Uma reportagem da Exame falando sobre um fundo com recursos do FGTS para financiar empresas me chamou atenção esta semana. Existe muita literatura que busca justificar a elaboração de políticas públicas para estimular a indústria, é uma literatura que usa argumentos técnicos como ganhos de escala ou alguma forma de externalidade. Para o leigo o primeiro argumento pode ser simplificado pela idéia que quanto maior uma empresa mais eficiente ela é, sendo assim facilitar o crescimento das empresas levaria a um aumento produtividade. O segundo argumento é mais rico e mais complexo mas, grosso modo, consiste na idéia que grandes empresas tornam outras empresas mais eficientes. Isto pode ocorrer por conta da tecnologia adotada na grande empresa chegar nas outras empresas, o dito transbordamemto tecnológico, por conta do capital humano estimulado pela grande empresa, por conta de recursos de infraestrutura ou por conta de qualquer outra coisa do tipo que a criatividade dos economistas permita. Também existe muita literatura questionando a existência ou a relevância tanto de retornos crescentes quando de externalidades. É um debate interessante mas que não vou explorar aqui, pelo menos não hoje.
Quero levantar um outro tipo de objeção que não está relacionada a questões técnicas da produção, a objeção que quero falar diz respeito ao caráter social da produção. Questões relacionadas ao caráter social da produção estão na moda em grande parte por conta do livro e do blog do Daron Acemoglu e do James Robinson, Why Nations Fail. Comecei a me preocupar com estas questões em meados da década de 1990 quando tive a sorte de conhecer o professor Stephen Parente e ele me apresentou as pesquisas dele e do Edward Prescott a respeito das barreiras ao crescimento. Eles tentavam mostrar tanto empiricamente quanto teoricamente que a existência de arranjos legais que dão direitos a alguns grupos de barrar adoção tecnológica seria uma das principais razões para explicar as diferenças entre as rendas das nações, aos interessados recomendo a leitura do livro deles Barries to Riches. Na realidade a análise das condições sociais da produção está presente mesmo em Smith, mas, na opinião de curioso em HPE que sou, creio que Marx foi o economista clássico que mais destacou esta questão, pelo menos é o que lembro das leituras de Para Crítica a Economia Política, que aliás recomendo para todos os estudantes de economia.
Pois bem, toda esta conversa até agora foi para justificar que abordar a questão da política industrial de uma perspectiva puramente técnica pode ser um erro grave. O grande problema do uso do poder do estado para definir vencedores e perdedores é que isto faz com que se formem grupos de interesse com o objetivo de capturar estes instrumentos do estado. Desta forma empresas deixam de buscar a inovação e produtividade como forma de obter lucro e passam a investir na formação de grupos que possam influenciar as políticas públicas, o resultado no longo prazo pode ser desastroso. Notem que esta não é uma questão binária, do tipo sim ou não, é uma questão de grau. Em todas as sociedades o estado direciona a economia em algum grau, mas talvez exista um certo ponto onde a partir daí o incentivo perverso que falei acima começa a prevalecer. Tenho bons motivos para acreditar que o Brasil já passou deste ponto, vou além, passamos deste ponto na década de 1970, talvez antes, retroagimos na década de 1990, mas voltamos à direção errada a partir de 2005.
O caso do grupo X provavelmente será lembrado como o caso emblemático deste tempo, talvez não devesse ser, a defesa que Marcelo Odebrecht fez do financiamento ao Porto de Muriel em Cuba me parece mais simbólico, até porque a história é escrita pelos vencedores, e, convenhamos, empreiteiros estão entre os grande vencedores deste capitalismo de laços que existe no Brasil. Como teria dito Murray Rothbard (me corrijam se eu estiver errado):
"Sempre que surgir um grande empresário abraçando com entusiasmo e júbilo a parceria entre governo e empresas, senhoras e senhores, é bom ficarem de olho em suas carteiras - vocês estarão prestes a serem roubados."
Acredito que atual estagnação da economia brasileira tem suas raízes no fenômeno que descrevi acima. Está em formação um consenso que sem ganhos de produtividade a economia brasileira está condenada a um crescimento medíocre, isto é bom porque não faz muito tempo esta mesma afirmação era tratada com desconfiança, coisa de economista neoclássico que não conseguiu ir além de Solow, diziam. Agora precisamos de outro consenso, um que diga que os ganhos de produtividade ocorrem no setor privado e que este setor responde a incentivos. Sem os incentivos adequados o setor privado não vai gerar os desejados ganhos de produtividade. Enquanto ser amigo do rei for mais rentável que ser o mais produtivo estamos condenados a ter empresários amigos e ineficientes.