quinta-feira, 30 de julho de 2015

Inflação, economia real e o aumento da taxa de juros.

Não é possível contar a história recente da economia brasileira sem mencionar o esforço para trazer a inflação para níveis civilizados. Durante muitos anos o debate econômico no Brasil girou em torno de temas relacionados à inflação, alguns debatiam como conviver com a inflação, outros debatiam como reduzir a inflação e outros se dedicavam a entender as origens e as causas da inflação. Não vou questionar a validade de tais debates, grosso modo acredito que foram em vão, entrar nessa questão desviaria o foco do post, apenas registro que quando finalmente conseguimos controlar a inflação fizemos o que todo mundo faz: usamos política monetária. Sem o uso da política monetária o Plano Real quase certamente teria sido mais um exemplo de fracasso, o controle inicial da inflação teria evaporado em menos de um ano.

Os críticos do uso da política monetária para controlar a inflação costumam apontar efeitos coletarias reais ou imaginários da elevação da taxa de juros. Uma leitura nos jornais é suficiente para encontrar dezenas de autores falando como a elevação da taxa de juros pode causar desemprego, acabar com o crescimento da economia, reduzir investimento, valorizar o câmbio, comprometer as exportações e ainda destruir as contas públicas. Particularmente creio que a maior parte dos efeitos listados são fantasiosos ou são falácias, a relação entre a política monetária e as variáveis reais da economia (e.g.: emprego, crescimento e taxa de investimento) é, para dizer o mínimo, mal compreendida pelos economistas. Porém não nego que alguns efeitos existem, no final do dia a taxa de juros é um preço e mudanças em qualquer preço beneficiam uns e prejudicam outros, via de regra beneficia vendedores, no caso os donos dos recursos emprestados, e prejudica os compradores, no caso os que pegam dinheiro emprestado. Nada de catastrófico e nada de impressionante, apenas o dia a dia da economia.

São tantos argumentos e tantos autores criticando o aumento da taxa de juros que o leitor pode estar se perguntando se eu estou louco ou eu sou um economista do mercado financeiro. A primeira dúvida eu não posso tirar, acredito que não sou louco, mas dizer que não é louco é uma característica dos loucos. A segunda dúvida eu posso esclarecer, não sou ligado a nenhum banco ou corretora ou nada que tenha relação com o sistema financeiro, sou professor na Universidade de Brasília e trabalho com produtividade, não faço nada que interesse diretamente aos investidores no mercado financeiro. Ocorre que sou um macroeconomista aplicado e tenho por hábito olhar os dados. A figura abaixo foi elaborada com dados do Ipeadata e mostra a taxa Over/Selic e a diferença entre a taxa Over/Selic e o IGP-DI, uma proxy para juros reais, desde agosto de 1994, ou seja, desde o mês seguinte ao Plano Real. Repare que nem a taxa nominal (linha azul) nem a diferença entre a taxa nominal e a inflação (linha laranja) estão em valores particularmente altos, pelo contrário, a média da taxa nominal mensal entre agosto de 1994 e junho de 2015 foi de 1,4% e em junho de 2015 o valor foi de 1,06%, a média da diferença entre a taxa nominal e a inflação no mesmo período foi de 0,72%, em junho de 2015 o valor foi 0,39%, pouco mais que metade da média.




Visto que a taxa de juros atual, nem a nominal nem a proxy que usei para taxa real, estão abaixo da média observada desde a estabilização seria o caso de perguntar se a economia está melhor do que quando as taxas de juros estavam mais altas. Talvez seja útil saber que apenas nos últimos meses do primeiro mandato de Lula a taxa nominal foi menor que de junho de 2015, ainda assim Lula foi reeleito e se tornou o presidente mais popular da história recente. Da mesma forma a taxa de juros média dos dois mandatos de Lula foi de 1,14% ao mês, maior que a de junho de 2015, no mandato de Dilma a média foi de 0,8%, bem menor que a de Lula. Alguém está disposto a argumentar que a economia teve melhor desempenho no governo Dilma do que no governo Lula?

A verdade é que como acontece com vários preços não sabemos muito a respeito de como mudanças na taxa de juros afetam o lado real da economia, porém sabemos que a taxa de juros é um bom instrumento para combater a inflação e que a inflação não apenas transfere recursos da sociedade para o governo (e para os bancos) como penaliza as famílias que tem dificuldade para reajustar suas rendas, sendo assim a inflação prejudica sobremaneira a pensionistas, assalariados e beneficiários de programas sociais. Não entendo porque tantos criticam o uso de um instrumento que já mostrou ter feito para combater a inflação por conta de efeitos colaterais mal definidos e que parecem contrários aos fatos.... talvez eu entenda...




domingo, 26 de julho de 2015

Reformas e Indústria Automobilística: uma leitura do Anuário Estatístico da Indústria Automobilística

O leitor que acompanha o blog sabe que um dos principais motivos para existência desse espaço é denunciar a agenda de contrarreformas que começou por volta de 2006 e tomou força a partir de 2011 com a chegada de Dilma ao poder. O fracasso da Nova Matriz Econômica proposta pela equipe econômica do primeiro governo Dilma hoje é evidente. Um programa que prometia aumentar o crescimento e a taxa de investimento, recuperar a participação da indústria no PIB e ainda manter a inflação sobre controle e aprofundar o processo de redução da pobreza extrema e desconcentração de renda teve como resultado o exato oposto do que propunha. O país parou de crescer, a taxa de investimento reverteu a tendência de crescimento, a participação da indústria no PIB continuou caindo, a inflação subiu, a miséria aumentou e o processo de desconcentração de renda perdeu força. Diante de tamanho fracasso continuar batendo na agenda de contrarreformas poderia ser visto quase como uma forma de sadismo, mas não é. As ideias que inspiraram tanto as contrarreformas quanto a infame Nova Matriz Econômica continuam vivas e fortes apenas esperando uma nova oportunidade de voltarem a pautar a política econômica.

Sou de uma geração de economistas que ousou sonhar que o desenvolvimentismo à brasileira tinha saído de cena de uma vez por todas. Por algum tempo pensei que estávamos livres do cotidiano de fortunas construídas do dia para noite por empresários especializados em tomar financiamento subsidiado do governo para construir obras ou produzir mercadorias superfaturadas para o próprio governo. Não que a corrupção fosse acabar ou que aqui ou ali não aparecesse um caso de sucesso empresarial tão inexplicável quanto próximo ao governo, infelizmente essas coisas existem em qualquer lugar do mundo, mas confesso que pensei que casos assim deixariam de ser regra e passariam a ser exceção. Ledo engano, mal nos recuperamos da crise da década de oitenta e trouxemos de volta o BNDES bem como os grandes programas de infraestrutura definidos em Brasília e financiados pelo contribuinte. É bem verdade que governo grande nunca saiu de cena, mas o governo que transfere renda para os muito ricos à guisa de financiar o desenvolvimento tinha saído de cena e estava de volta à ribalta.

No meio de crise fiscal, ameaça de volta da inflação, demissões em massa e ainda por cima de uma crise política que toma contornos de crise institucional é fácil ver que tudo deu errado, mas pode ser difícil enxergar os detalhes do processo que fez com que tudo desse errado. Com o objetivo de ilustrar a origem do mal que nos assola resolvi dar uma olhada no anuário estatístico da indústria automobilística (link aqui) e tentar ver como seria possível contar a história das reformas e das contrarreformas a partir dos dados de um setor da indústria que sempre esteve no centro das atenções de nossas políticas industriais. Para isso devo dizer que um dos elementos da lógica das contrarreformas é o que se chama de macroeconomia do emprego e da renda, a ideia é que a política econômica deve ser focada em garantir o emprego e a renda dos trabalhadores. Uma vez garantidos o emprego e a renda, na prática mais o emprego do que a renda, a demanda também estaria garantida e o espírito animal dos empresários faria o resto, ou seja, garantiria os investimentos necessários para aumentar a capacidade produtiva da economia. Caso algo desse errado bastaria o governo aumentar gastos de forma a garantir a demanda e manter vivo o espírito animal.

Um dos pontos desta lógica que mais me incomoda é que ela pressupõe poder guiar o espírito animal, qualquer um que tenha contato com animais sabe o quão difícil é guiar um animal e quão fácil é terminar levando uma dentada. Quando muito a lógica se aplicaria a animais adestrados, o que exigiria supor que burocratas têm capacidade de adestrar o espírito animal do empresário e ignorar que um dos efeitos colaterais do adestramento é exatamente destruir o espírito animal. Mas deixemos de coisas e cuidemos da vida, a figura abaixo mostra o número de pessoas empregadas na indústria automobilística, no gráfico estão o emprego apenas na produção de veículos e o emprego total, a diferença é o emprego na produção de máquinas agrícolas e rodoviárias. Chama atenção o aumento do total de pessoas empregadas no setor, o pico de 2013 só é menor que o pico de 1986, a subida que começa em 2003 é comparável a que começa em 1967, ao que parece será um pouco mais curta, mas da mesma ordem de inclinação. Tudo fica ainda mais impressionante se consideramos os possíveis efeitos do processo de terceirização sobre o número de empregados nas empresas do setor.




Se o emprego é variável de interesse para os elaboradores de política econômica o lucro é a variável de interesse para as empresas do setor. Não encontrei o lucro, mas encontrei o faturamento líquido, ou seja, o faturamento livre de impostos. Usar faturamento como proxy para lucros é uma estratégia arriscada, mas um blog é o tipo de lugar adequado para tomar certos riscos, sendo assim a figura abaixo mostra o faturamento do setor como proporção do PIB. Repare que desde a década de 70 não ocorria uma sequência de anos onde o faturamento da indústria automobilística ficasse acima de 4% do PIB, mais precisamente, em termos de faturamento da indústria automobilística o período atual só é comparável ao período entre 1971 e 1976. Juntando os números de emprego e faturamento fica difícil não ficar com a impressão que para a indústria automobilística os últimos anos foram tão bons quanto a década de 70.




O leitor assíduo do blog sabe que sempre que faço referência à década de 70 é porque estou preparando terreno para falar da década de 80, esse post não será exceção. O aumento do emprego no setor automobilístico na década de 70 despencou de tal forma na década de 80 que apenas por volta de 2012 o número de empregados no setor voltou a ser igual ao de 1980. Com os números que tenho não posso ajustar para os efeitos da terceirização, mas mesmo que o intervalo de 32 anos caia pela metade ainda terá sido um longo período de recuperação. Será que a queda que começa em 2014 será igual à queda que começou em 1981? Espero que não, mas temo que possa ser mais parecido que gostaríamos.

Para entender meus motivos peço que reparem no gráfico abaixo mostrando o emprego (eixo da esquerda) e a produtividade do trabalho (eixo da direita) na produção de veículos. Note que o grande período de crescimento do emprego ocorrido na década de 70 não foi acompanhado de crescimento semelhante na produtividade. No lugar de fazer mais com menos, que é o caminho para a riqueza, estávamos fazendo mais com mais, que é um processo limitado pela oferta de capital e trabalho e/ou pelos rendimentos decrescentes na produção. Repare agora que no período das reformas, a partir da abertura em 1990, a indústria automobilística começa um processo de crescimento da produtividade. Mais emprego, mais produtividade e mais faturamento! Como pode dar errado?





Olhe com mais atenção. Para ajudar vou colocar alguns números. Entre 1973, quando começa a estagnação da produtividade, até 1990, começo da abertura, a produtividade do trabalho cresceu a uma taxa média de 0,3% ao ano, uma taxa muito baixa. Entre 1991 e 2005, período das reformas, a produtividade do trabalho cresceu a uma taxa média de 8,8% ao ano, um crescimento quase trinta vezes maior. Entre 2006 e 2014, período de contrarreformas, a produtividade teve um crescimento negativo de 0,5% ao ano, se considerarmos apenas o período da Nova Matriz o crescimento negativo foi de 4,8% ao ano! Fica difícil não concluir que a crise atual da indústria automobilística é uma crise que passa pela falta de crescimento da produtividade, ao focar no emprego e ignorar a produtividade a política econômica mais uma vez gerou um crescimento não sustentado, pior, destruiu um crescimento que parecia sustentável para colocar no lugar uma repetição piorada do modelo da década de 70. Se serve de consolo o processo democrático parece ter atrapalhado a ponto de quase impedir a estratégia desenvolvimentista do século XXI, o povo foi para as ruas deixar claro que não estava disposto a financiar devaneios de burocratas que acreditam não apenas domar animais como descoberto a maneira de domesticar sem eliminar o instinto selvagem. No lugar de pirotecnias como maxidesvalorização do câmbio por decreto e fórmulas mágicas de correção salarial temos um governo acuado, empresários amigos na cadeia e promessas vazias de ajuste fiscal. Melhor assim.




P.S. Sempre que mostro números contrastando o período de reformas do período de contrarreformas aparece alguém cobrando os números por mandatos presidências. Acredito que separar por política econômica faz mais sentido do que por quem é o inquilino do Palácio do Planalto, mas para poupar o trabalho de alguns amigos informo que o crescimento da produtividade do trabalho foi de 5,6% no período de FHC, 4,5% ao ano no período de Lula e -4,8% ao ano no período Dilma.


segunda-feira, 20 de julho de 2015

Uma nova década perdida?

Em 2010 o PIB brasileiro cresceu 7,5%, era o coroamento de uma década de crescimento que há muito não se via no Brasil. Depois do desastre da década de 1980, conhecida como década perdida, dedicamos a década seguinte a arrumar a casa e estabilizar a economia. Com a economia estabilizada a primeira década do século XXI foi caracterizada por crescimento acompanhado de redução da pobreza e da desigualdade. De acordo com os dados do FMI (link aqui) nas décadas de 80 e 90 o PIB per capita cresceu a uma média anual de 0,1% e 0,92%, respectivamente. Sendo assim não foi sem razão que comemoramos com entusiasmo o crescimento médio anual de 2,43% na década que foi de 2001 a 2010. Não bastasse a volta do crescimento também houve um aumento da taxa de investimento, em 2001 o Brasil investiu 18,9% do PIB e em 2010 investiu 21,8%.

Com uma década de crescimento inclusivo e com o aumento do investimento não faltou quem decretasse que a década de 10 seria ainda mais impressionante que a anterior. Como poderia não ser? A dita nova classe média seria a base do mercado interno que serviria de impulso à demanda agregada, o tão esperado mercado interno parecia ter finalmente aparecido. Do lado da oferta o aumento da taxa de investimento ia garantir o aumento da capacidade de produção. Como tudo que é bom pode melhorar ocorreu um aumento significativo do acesso à educação, inclusive ao ensino superior. Não bastasse tudo isso a dívida líquida chegou a 37,9% em 2010 contra 51,5% em 2001. Nem mesmo a volta do déficit em conta corrente assustava, afinal tivemos superávit entre 2003 e 2007 e era preciso muita má vontade para não ver que o déficit retornou em 2008 por conta da Crise Financeira que abalou o mundo. Pela primeira vez em muito tempo não teríamos restrições internas nem externas ao crescimento.

Com tanta coisa boa acontecendo qualquer um que em 2010 sugerisse que estávamos iniciando uma crise que poderia transformar a década seguinte em uma nova década perdida seria visto como um maluco ou um crítico raivoso e irracional do governo. Sei bem disso porque foi exatamente a condição que eu estava em 2010. Trabalho com crescimento econômico e dedico a maior parte do meu tempo de pesquisa ao cálculo da produtividade no Brasil. Cálculo de produtividade consiste em dividir uma medida de produto por uma medida de insumos, a arte está em definir as medidas adequadas. Economistas acadêmicos são acostumados a trabalhar com coisas como cálculo estocástico, programação dinâmica e modelos de dados em painel, impressioná-los com uma simples divisão não é uma tarefa exatamente fácil. A saída que encontrei foi usar as medidas de produtividade em algum modelo que tivesse cálculo estocástico e/ou programação dinâmica, o modelo escolhido foi o modelo neoclássico de crescimento. A estratégia durou pouco tempo, rapidamente meus colegas descobriram que eu estava usando o mesmo modelo com medidas diferentes de produtividade e pararam de se impressionar com meus artigos. Ocorre que no modelo neoclássico de crescimento a produtividade é o único motor do crescimento de longo prazo, como as medidas de produtividade mostravam que o crescimento da produtividade no Brasil era baixo então minhas simulações mostravam baixo crescimento no futuro.

Foi uma experiência frustrante. Enquanto meus colegas usavam um monte de variáveis e modelos para mostrar o futuro maravilhoso que estava pela frente eu ia contra a corrente bancado por uma única variável, a produtividade, e um modelo cujo a estrutura central era da década de 1950. Pior, a versão mais moderna do modelo que eu uso torna explícita a hipótese de racionalidade dos agentes e ainda ousa trabalhar com equilíbrio competitivo, duas heresias para a maioria dos economistas que estudam economia brasileira. Enfim, lá estava eu nadando contra a corrente munido de um modelo que quase ninguém aprovava e de uma variável que era vista como excentricidade de economistas neoclássicos. Pois bem, o tempo vingou minha variável e já nos primeiros anos da década de 10, quando ficou claro que o crescimento não vinha como esperavam, vários economistas dentro e fora do governo passaram a levar a sério a produtividade. Não tenho esperanças que o tempo vá vingar o modelo neoclássico, para ser sincero não creio que nenhum modelo mereça ou mesmo possa ser vingado, mas já vejo sinais que o tempo vai vingar minha previsão.

A figura abaixo mostra a evolução do PIB per capita brasileiro no período entre 1981 e 1990, a década perdida, e no período entre 2011 e 2020, a década que seria nossa redenção, ou, para usar a expressão da presidente Dilma, seria a década do PIBão. Os dados e as projeções são do FMI, repare que para 2016 a previsão é de crescimento do PIB per capita, muita gente por aqui pensa o contrário. Se a previsão do FMI para 2015 se realizar (queda de 1,8% no PIB per capita, novamente mais otimista do que as previsões feitas por aqui) os primeiros cinco anos da década atual terão sido piores que os primeiros cinco anos da década de 80. Pior, ainda considerando as previsões do FMI, a década atual só não será pior que a década perdida por conta da queda brutal do PIB per capita em 1990. Para os que não lembram 1990 foi o ano em que Collor resolveu “sequestrar” os ativos financeiros, um evento raro e de difícil previsão.




Pode ficar pior. Se no lugar das projeções do FMI fizermos a hipótese que o crescimento do PIB per capita entre 2016 e 2020 for a mesma do período 2011 a 2015, ou seja 0,02%, a década de 10 terá tido menos crescimento do que a década perdida. É razoável supor que o crescimento de 2016-20 será igual ao de 2011-15? Creio que não, mas não faz muito tempo não era razoável supor que a década atual seria uma nova década perdida.




segunda-feira, 13 de julho de 2015

Comparando Gigantes: Brasil, Rússia, China, Índia e Estados Unidos

Vez por outra comparo a desempenho econômico do Brasil com outros países, sempre aparece alguém apresentando bons motivos para justificar que o grupo escolhido não é adequado. Quando comparo com a América Latina dizem que a comparação é descabia porque somos mais industrializados que os outros países do continente, já questionei no blog a validade desse argumento (link aqui), ou porque somos muito maiores do que nossos vizinhos, o que é verdade embora não seja um impeditivo para comparação. Mesmo acreditando que a América Latina é uma boa referência para comparações com o Brasil (tratei do tema aqui) não raro aceito as críticas e procuro outros grupos de comparação, fiz isso no post a respeito da produtividade (link aqui). Outras vezes aparecem comparações com países em cima de uma única variável, nesses casos gosto de pegar o pais que serviu de comparação e avaliar outras dimensões (fiz um exercício do tipo aqui).

Por alguma razão alguém me enviou a figura abaixo sugerindo que o grupo de comparação para o Brasil seria composto por China, EUA, Índia e Rússia. A justificativa é que os cinco países são os únicos que simultaneamente possuem territórios com mais de dois milhões de quilômetros quadrados, mais de cem milhões de habitantes e PIB superior a seiscentos bilhões de dólares. Não me foi apresentada nenhuma razão para justificar porque os limites para comparação foram estabelecidos em dois milhões de quilômetros quadrados, cem milhões de habitantes ou PIB maior que seiscentos bilhões de dólares, mas não vou implicar com isso. Para definir um grupo de comparação é necessário estabelecer algum critério que de alguma forma acaba sendo arbitrário. O que realmente me incomoda é a ideia que tamanhos absolutos são adequados para definir grupos de comparação, eu prefiro medidas relativas. No lugar de PIB eu usaria PIB per capita e no lugar de área e população eu ficaria mais confortável com densidade demográfica. Não fico confortável em comparar um país onde a renda média é de aproximadamente U$ 55 mil, como os EUA, com um país onde a renda média é de aproximadamente U$ 6 mil como é o caso da Índia, no primeiro caso não crescer significa permanecer rico, no segundo não crescer significa permanecer pobre, a diferença qualitativa é gigantesca para ser ignorada.



Mesmo sem gostar dos critérios usados vou entrar no jogo e comparar os cinco países gigantes sugeridos pela figura, costumo dizer que o Brasil está mal comparado a (quase) qualquer grupo de países e não posso negar que os cinco países em questão formam um grupo. Farei a comparação em dois momentos, no primeiro será usado o período 2011 a 2014, correspondendo ao primeiro mandato da presidente Dilma, o segundo considerará 2015 e 2016 como forma de capturar o futuro próximo, todos os dados usados são do FMI e estão disponíveis na internet. A tabela abaixo mostra o crescimento do PIB de cada país nos dois períodos de interesse.

País
Crescimento 2011-2014
Crescimento 2015-2016
Brasil
2,14%
-0,02%
China
8,04%
6,53%
Índia
6,45%
7,46%
Rússia
2,40%
-,246%
EUA
2,13%
3,10%

No período 2011 a 2014 ficamos em penúltimo lugar, apenas os EUA, um país que já é rico e que foi o epicentro da crise de 2008 cresceu menos que o Brasil, repare que a diferença foi de 0,01%. O quadro fica ainda pior se considerarmos que só ficamos na frente dos EUA por conta de 2011, primeiro ano de governo Dilma onde é razoável supor que os efeitos da desastrosa Nova Matriz Econômica ainda não tinham sido sentidos, se excluirmos 2011 nosso crescimento médio teria sido de 1,55% contra 2,30% dos EUA e 1,77% da Rússia. Lamentavelmente o quadro não muda quando olhamos para frente, as projeções para 2015 e 2016 sugerem que continuaremos na penúltima posição no ranking de crescimento do PIB. A novidade é que a Rússia troca com os EUA e passa a ocupar a última posição. Me parece justo dizer que no critério crescimento não ficamos bem na comparação com o grupo dos gigantes.

A próxima variável a ser comparada é a taxa de inflação, os dados estão na tabela abaixo. Considerando a inflação do período entre 2011 e 2014 ficamos em terceiro lugar, se consideramos o que se espera para o futuro próximo voltamos ao penúltimo lugar. Aqui é interessante registrar que os dois países onde se espera crescimento negativo, Brasil e Rússia, são os mesmos dois países onde se espera aumento da inflação, nos dois países onde espera-se um aumento na taxa de crescimento a inflação deve cair. Não significa muito, mas é bom ter registros como este em mente para a próxima vez que disserem que o combate à inflação é inimigo do crescimento.

País
Inflação média 2011-2014
Inflação média 2015-2016
Brasil
6,14%
6,87%
China
3,16%
1,35%
Índia
8,92%
5,92%
Rússia
7,02%
13,87%
EUA
2,07%
0,80%

Passemos agora para variável trunfo do governo: a taxa de desemprego, o leitor sabe que toda vez que alguém faz críticas à política econômica é condenado a ouvir uma aula sobre como nosso desemprego é bem menor que o de outros países e como é importante manter o desemprego baixo. A tabela abaixo mostra os dados de desemprego, infelizmente não existiam informações para a Índia de forma que vamos ter de nos contentar com apenas quatro países. Considerado o período 2011 a 2014 nossa taxa de desemprego só foi maior do que a da China, ficou muito próxima da taxa da Rússia e bem menor que a dos EUA. Infelizmente o quadro deteriora no futuro próximo e voltamos a ficar em penúltimo lugar no esperado para 2015 e 2016, infelizmente mais próximos do último, que novamente é a Rússia, do que do segundo, que passa ser os EUA.

País
Desemprego 2011-2014
Desemprego média 2015-2016
Brasil
5,42%
6,10%
China
4,09%
4,09%
Índia
-
-
Rússia
5,65%
6,5%
EUA
7,63%
5,30%

Até agora não estamos nos saindo bem, ficamos mal em crescimento e inflação e as perspectivas para o emprego também não são favoráveis, não fosse a Rússia estaríamos colecionando últimos lugares, mas como só existe uma Rússia estamos colecionando penúltimos lugares. Ocorre que ao contrário do que fazia até as eleições do ano passado o governo não mais nega a existência de uma crise, o discurso oficial agora é que estamos em uma crise conjuntural e que o futuro será glorioso. Vimos que o futuro próximo não parece muito glorioso, mas ainda seria possível argumentar que estamos investindo para que no longo prazo possamos crescer, de fato é o que alguns autores governistas têm feito. Olhemos então para a taxa de investimento, os dados estão na tabela abaixo.

País
Taxa de Investimento 2011-2014
Taxa de Investimento 2015-2016
Brasil
20,80%
19,10%
China
47,68%
45,04%
Índia
34,80%
32,27%
Rússia
22,38%
17,78%
EUA
19,20%
20,67%

Mais uma vez ficamos em penúltimo lugar. No período 2011 a 2014 ficamos na frente apenas dos EUA, novamente cabe registrar que os EUA foram o epicentro da crise de 2008 e que é natural que países ricos invistam menos do que países em desenvolvimento. No futuro próximo novamente somos ultrapassados pelos EUA e ultrapassamos a Rússia. Espero que o leitor esteja percebendo que existem três padrões no grupo, o primeiro com China e Índia é de países em desenvolvimento com perspectiva de seguir uma trajetória de crescimento, o segundo engloba Brasil e Rússia e mostra países em desenvolvimento que estão em crise e com perspectivas ruins, o terceiro padrão é o dos EUA, um país rico saindo de uma crise grave. Dos cinco gingantes dois estão subindo; um já estava no alto, escorregou e está se levantando; e dois não apenas se mostram incapazes de continuar a subida como dão sinais que vão cair alguns degraus. Infelizmente somos um dos dois que estão com sérios problemas.

Um último indicador para comparação é o saldo em transações correntes. Grosso modo um saldo em transações correntes positivo significa que o país está poupando em relação ao resto do mundo, ou seja, o país ganha mais do que gasta, vale o contrário, um resultado negativo significa que o país gasta mais do que ganha e precisa se financiar com o resto do mundo ou vender ativos. A tabela abaixo mostra os dados do saldo em conta corrente como proporção do PIB. Tenha em mente que um déficit elevado em transações correntes não é necessariamente algo ruim, significa apenas que o país está se financiando no resto do mundo, se o dinheiro que o país pega com o resto do mundo for usado em algo que dê um bom retorno o país pagará suas dívidas e seguirá sua trajetória de crescimento. O problema aparece quando o recurso captado no resto do mundo não é bem aplicado de forma que o pagamento da dívida contraída trará sacríficos significativos para o país no futuro.

País
Transações correntes 2011-2014
Transações correntes 2015-2016
Brasil
-2,88%
-3,55%
China
2,10%
3,18%
Índia
-3,05%
-1,43%
Rússia
2,13%
3,10%
EUA
-2,64%
-2,33%

No caso das transações correntes ficamos em penúltimo no passado recente e último no futuro próximo. Lembrem que saldo em transações correntes negativo não é necessariamente um problema, tudo depende do que está sendo feito com o dinheiro. Entre 2011 e 2014 a Índia teve um grande déficit, mas estava investindo quase 35% do PIB, nós tivemos um déficit um pouco menor que o que o da Índia, mas estávamos investindo 20% do PIB. Quem deverá ter mais chances de pagar os credores sem grandes sacrifícios? O que pegou emprestado para investir ou o que pegou emprestado para consumir? Sei que eu tinha dito que o saldo em transações correntes seria o último indicador do post, mas para responder as perguntas vale à pena dar uma olhada nas taxas de poupanças de cada país. Prefiro voltar atrás no que disse do que deixar as perguntas em aberto, paciência... está terminando.

A tabela abaixo mostra a taxa de poupança nos cinco países do grupo de comparação. No passado recente nossa taxa de poupança só foi maior do que a dos EUA, para 2015 e 2016 a projeção é que nossa taxa de poupança será a menor do grupo. O quadro que se configura é que China e Rússia são países que poupam mais do que investem e, portanto, estão financiando o resto do mundo. Brasil, Índia e EUA são países que investem mais do que poupam e por isso são financiados pelo resto do mundo (não é coincidência que a avaliação da diferença entre investimento e poupança seja a mesma da avaliação da conta corrente, os dois conceitos medem a mesma coisa). Ocorre que a Índia está fazendo um considerável esforço de poupança e investimento e o Brasil não, nós estamos muito próximos à cigarra da fábula e o inverno já começou.

País
Taxa de poupança 2011-2014
Taxa de poupança 2015-2016
Brasil
17,92%
15,56%
China
49,78%
48,22%
Índia
31,76%
30,84%
Rússia
25,73%
23,60%
EUA
17,29%
18,34%

No primeiro bloco de comparação o Brasil apareceu junto à Rússia no grupo dos gigantes que pararam de crescer e dão sinais que podem encolher. No segundo bloco de comparação o Brasil aparece junto com os EUA no grupo dos gigantes que estão pegando dinheiro emprestado para financiar consumo, ambos poupam pouco e investem pouco, mas só um dos dois é rico. No quadro geral o Brasil aparece como um país que cresce pouco, tem inflação alta, poupa pouco, investe pouco e está se endividando. Não estávamos ruins no quesito desemprego, mas a perspectiva é que fiquemos. No final do dia mesmo considerando um grupo de comparação estranho como o dos cinco gigantes ficamos mal na foto. Para poupar trabalho dos que vivem a busca de um grupo onde não fiquemos mal na foto sugiro um com Rússia e Grécia, mas corram, em breve a Grécia pode estar melhor do que o Brasil.





P.S. Depois de escrever o post encontrei a figura que define o grupo dos gigantes em um post no blog Tijolaço. O texto que acompanha a imagem não fala de comparar os países, o ponto é que o Brasil tem vocação para ter um destino próprio e não para ser um satélite (link aqui). O link para o grupo do Facebook de onde o autor do post no Tijolaço estava quebrado, procurei o grupo no Facebook e lá encontrei a imagem sem um contexto específico (link aqui) e descobri que os dados da figura são de 2010. Porém me pediram uma comparação e uma comparação eu fiz.

sexta-feira, 10 de julho de 2015

A respeito do corte de orçamento na pós-graduação

Uma nota da Universidade Federal da Bahia (UFBA) a respeito de um corte de 75% no total de recursos do PROAP (programa do governo federal que financia a maior parte da pós-graduação) gerou alguma comoção entre a comunidade de pesquisadores no Brasil. A nota da UFBA (link aqui) fala da possibilidade da paralisação das atividades de pós-graduação não apenas na UFBA como na maioria das universidades do país. Tenho experiência com pós-graduação, durante seis anos fui coordenador de pós-graduação no Programa de Pós-Graduação em Economia da UnB, não chego a dizer que um corte de 75% do PROAP vá paralisar a pós-graduação mas vai chegar perto, nas ciências duras, onde os custos e a necessidade de um fluxo continuo de financiamento são maiores, é possível que ocorra uma paralisação de fato.

Como chegamos a tal situação? Para tentar responder essa questão fui na página da CAPES e avaliei os orçamentos disponíveis (link aqui). Começo com a quantidade destinada a pós-graduação. A figura abaixo mostra o orçamento executado com fomento a pós-graduação em entre 2004 e 2013, são os anos disponíveis, não é igual ao PROAP pois existem outros programas destinado a apoiar a pós-graduação, mas creio que é um bom indicador do quanto a CAPES tem gasto para estimular a pós-graduação no Brasil. Repare que houve um aumento considerável no período, o crescimento real entre 2004 e 2013 foi de impressionantes 667%, os 25% que sobram após o corte equivalem ao total executado em 2005, corrigido para valores de 2013, e é maior que o executado em 2006. A figura ao lado mostra o crescimento dos recursos destinados ela CAPES ao fomento da pós-graduação.

Ocorre que não foi apenas os recursos destinados à pós-graduação que cresceram entre 2004 e 2013, o número de cursos de pós-graduação e o número de professores e estudantes de pós-graduação também cresceram. Não vou entrar aqui na questão da qualidade, é uma boa discussão mas desviaria o foco do post. O que me interessa saber é se o crescimento foi sustentado, ou, dito de outra forma, se o aumento de recursos para pós-graduação é sustentável. Desconfio que não. Assim como em inúmeras outras áreas o governo acreditou que a prosperidade puxada por juros baixos e commodities caras seria eterna e estimulou um crescimento excessivo.

Os números para bolsas de estudo reforçam a tese do crescimento insustentável. O total de recursos gastos com bolsas no país cresceram 213% em termos reais entre 2004 e 2013, os recursos gastos com bolsas no exterior diminuíram 11% no mesmo período. O comportamento da taxa de câmbio pode explicar parte da redução no gasto com bolsas no exterior, mas não creio que explique tudo e nem que seja capaz de mudar a comparação com as bolsas no país. O fato que as bolsas no país mais do que dobraram enquanto as bolsas no exterior diminuíram revelam um padrão de prioridade preocupante. As experiências asiáticas, geralmente usadas como referência, foram caracterizadas por um grande envio de bolsistas de pós-graduação para o exterior. O dado fica mais preocupante quando o Ciência sem Fronteira é inserido na história, deixar de mandar estudantes de pós-graduação para o exterior, que de fato tem potencial de desenvolver pesquisa de ponta, para mandar alunos de graduação me parece uma política simplesmente indefensável. Para que o leitor tenha ideia em 2013 os gastos com as bolsas do Ciência sem Fronteira alcançaram R$ 1,2 bilhões enquanto os gastos com bolsa no exterior foram de R$ 130 milhões.

Outro ponto que pode ser relevante é que a partir de 2007 a CAPES passou a ser responsável por vários programas não necessariamente ligados a pós-graduação. Entre 2008 e 2011 uma parte significativa dos recursos de fomento da CAPES eram para o Programa Universidade Aberta (UAB, link aqui), nos anos de 2008 e 2009 o programa foi equivalente a 60% do gasto em fomento, em 2010 e 2011 caiu para aproximadamente 30%. A partir de 2010 a CAPES também passou a cuidar da formação de professores da educação básica, os gastos com esse programa corresponderam a 16% do gasto de fomento em 2010, chegaram a 60% em 2012 e recuaram para 52% em 2013. Além do fomento a CAPES também destina bolsas para o programa de educação básica, o pico destas bolsas ocorreu em 2012 quando chegaram a 21% do gasto total com bolsas. Por fim a CAPES assumiu o Ciência sem Fronteira.

Longe de mim questionar a importância da educação básica, pelo contrário, acredito que o governo deve dar prioridade à educação básica. A questão é se a CAPES é o instrumento adequado para a função. Na época que se preocupava apenas com pós-graduação a CAPES conseguia executar 100% do orçamento destinado a pós-graduação, em 2013, já com novas atribuições, a CAPES executou menos de 50% do orçamento destinado as atividades de fomento, é bem verdade que se considerado apenas o fomento à pós-graduação a CAPES executou 91% do previsto em 2013, mas em 2012 executou apenas 63%. Entre 2004 e 2007 a CAPES executou praticamente 100% dos gastos destinado ao fomento da pós-graduação em todos os anos. Ao que parece ao assumir novas tarefas a CAPES comprometeu a execução das tarefas antigas. A figura ao lado mostra a dotação e a execução dos gastos de fomento da CAPES entre 2004 e 2013, a partir de 2007 a CAPES começou a fomentar outras atividades não estritamente ligadas à pós-graduação.

Em resumo. Nos últimos anos a CAPES teve um aumento significativo de recursos, atividades como fomento a pós-graduação e bolsas no país também tiveram ganhos orçamentários significativos. Das grandes atividades da CAPES apenas as bolsas no exterior tiveram perdas reais de orçamento entre 2004 e 2013. Além de ter mais recursos para desenvolver as atividades que já desenvolvia a CAPES recebeu novas atribuições que passaram a ser parte significativa do orçamento dela. O resultado dos dois fenômenos é captado no aumento real de 407% no total de gastos executados pela CAPES entre 2004 e 2013. Para que o leitor tenha uma ideia de dimensão o PIB real cresceu 36,4% no mesmo período. Entre 2004 e 2013 os gastos realizados pela CAPES cresceram dez vezes mais que o PIB, os gastos com fomento da pós-graduação cresceram dezoito vezes mais que o PIB e os gastos com bolsas no país cresceram quase seis vezes mais que o PIB.

Assim como em outros setores da economia a pós-graduação vai ter de se ajustar à realidade. É provável que o ritmo de abertura de novos cursos caia, não descarto nem mesmo uma redução no número de cursos. Fica difícil dizer porque nos últimos anos foram contratados muitos professores para as universidades federais e não é impossível que grupos de professores tentem abrir novos programas mesmo sem recursos da CAPES. Porém também pode ser a hora perfeita para discutir reformas na pós-graduação, em particular reformas no financiamento da pós-graduação.

Talvez por um comodismo que pode ter sido estimulado pelo longo período de bonança não é comum ver programas de pós-graduação preocupados com formas alternativas de financiamento. Durante os anos que fui coordenador de pós-graduação, quase todos no período de bonança, lembro de ter participados de várias reuniões de coordenadores de pós-graduação em economia, em nenhuma delas o financiamento da pós-graduação estava em pauta. Discutimos muito a respeito dos critérios de avaliação da CAPES, tratamos do exame da ANPEC e falamos a respeito de homenagens e premiações, a conversa a respeito de financiamento ficava confinada aos corredores ou ao almoço, mesmo entre economistas parece que dinheiro não é um assunto relevante o suficiente para entrar em uma pauta oficial de reunião.

Uma ação orquestrada para pressionar pela regularização do mestrado profissional nas universidades federais? Nem pensar, isso não parece ser um tema relevante mesmo que a grande maioria dos programas de pós-graduação estejam abrigados em universidades federais. Formas de tirar da zona cinzenta a captação de recursos para pesquisa? De jeito nenhum, isso é conversa de quem quer transformar a universidade em balcão de negócios. A comunidade acadêmica, inclusive a de economia, parece acreditar que é obrigação da sociedade financiar completamente toda e qualquer pesquisa imaginada pelos professores doutores que atuam em programas de pós-graduação. A possibilidade de procurar um financiador privado mesmo que para algumas pesquisas chega a ser ofensiva.

Pois bem, com o aparente fim da fartura na CAPES é possível e desejável que os programas de pós-graduação sejam obrigados a escolher entre buscar novas formas de financiamento ou definhar. Espero que a escolha seja pelas formas alternativas de financiamento e não por sair de cena ou pedir que o governo corte programas voltados para educação básica para continuar nos financiando. Quem sabe a ANDIFES ainda não apresenta uma proposta pragmática a respeito do financiamento da pós-graduação. Quem sabe os coordenadores de pós-graduação dão o exemplo e na rodada de reuniões de área que deve ocorrer em agosto aceitem reduzir um pouco a milésima discussão do ano sobre critérios de avaliação e dediquem um tempinho que seja a questão do financiamento. É difícil, eu sei, mas assim como o choro é livre o sonho também é, tenho direito de sonhar.





terça-feira, 7 de julho de 2015

Meu registro da entrevista da presidente à FSP

O Antagonista leu a entrevista de Dilma à Folha de São Paulo (link aqui) e registrou os ataques da presidente ao juiz Sérgio Moro (link aqui). Eu também li a entrevista e deixo registrado o plano da presidente para as reformas estruturais.

E o governo vai ter de cobrir este buraco?
Vamos ter. Mas aí estamos agora mais preocupados em tomar medidas estruturantes, que contribuem ao mesmo tempo para o ajuste como para para o médio e longo prazos.
Tipo?
Tipo tipo.
Esta eu não conheço.
Vou te dizer como fazíamos em interrogatório. Você faz um quadrado (desenha), ai de ti se sair deste quadrado, você está lascado. Então, se eu não quiser falar de que tipo [de medida] eu não falo, tenho técnica para isto. Treino.




domingo, 5 de julho de 2015

Sobre o Euro e o Referendo da Grécia

Vou tentar fazer um breve guia para que os leitores acompanhem o que está acontecendo na Grécia e entendam minhas razões para dizer que se eu fosse grego eu votaria no não. Aviso logo que não seria um voto tranquilo, entendo que as duas opções são ruins e terão consequência graves, é uma escolha do menos pior. Aproveito também para sugerir a leitura do excelente post do Mercado Popular a respeito das críticas de Friedman à união monetária na Europa (link aqui).

Comecemos pelo PIB per capita, variável que melhor oferece um painel geral do que está acontecendo em uma economia. O PIB per capita da Grécia inicia uma trajetória de crescimento em 1994, antes da criação da Zona do Euro. Os primeiros anos da década de 1990 foram de baixo crescimento e inflação alta na Grécia, o PIB per capita encolheu em 1992 e 1993, a partir de 1994 tudo começou a melhorar e com a entrada na Zona do Euro ficou melhor ainda, entre 1994 e 2000, a taxa de crescimento da Grécia foi de 2,73% ao ano, entre 2001, ano que a Grécia entrou na Zona do Euro, e 2008, ano da Crise Financeira, a taxa de crescimento foi de 3,78% ao ano. Tudo mudou em 2008, de lá para cá a economia encolheu em todos os anos com exceção de 2014, é verdade que se as previsões do FMI se confirmarem também haverá crescimento em 2015, mas não creio que seja seguro apostar que as previsões do FMI vão se confirmar.


Por que a crise afetou a Grécia de forma tão brutal? Para isso será necessário ir além do PIB per capita. A figura ao lado mostra a taxa de investimento e a taxa de poupança na Grécia. Note que em 1994 as duas taxas estão praticamente iguais, isso significa que os gregos estavam financiando o próprio crescimento, ou seja, o investimento dos gregos era financiado pela poupança dos gregos. A partir de 1994 os gregos começam a demandar poupança de outros países para financiar o investimento, isso não é necessariamente um problema, pelo contrário, costuma ser bom que um país que retoma o crescimento possa usar poupança de outros países. Entretanto, como sabiam nossos avós, até água deve ser tomada com alguma moderação, que dirá empréstimos. Em 2008 a diferença entre taxa de investimento e taxa de poupança, que era de 0,1% do PIB quando começou o processo de crescimento estava em 14,5% do PIB.

Para que o leitor que não é economista visualize o argumento vale a pena considerar um exemplo corriqueiro em várias famílias. O casal de noivos arranja empregos melhores e começa a fazer planos para o casamento, o aumento de renda veio acompanhado de novos gastos para a preparação do enxoval, mas o casal continua dentro do orçamento. Vem o casório e o casal decide comprar um imóvel, para isso se endivida em um banco, ou seja, recorre a poupança de outras famílias. Até aqui não temos necessariamente um problema, desde que o casal tenha feito boas escolhas é possível que a compra da casa (investimento) se pague no decorrer dos anos, a dívida contraída será paga e o casal terá uma bela residência para criar os filhos. Suponha agora que o casal percebendo que a renda aumentou e que tem crédito resolva trocar de carro, no lugar do antigo carro econômico um utilitário de luxo e para isso mais uma vez recorre a poupança de outras famílias. Temos um problema? Ainda não necessariamente. O casal continua empolgado e resolve ter lua de mel em Paris e colocar os filhos na melhor escola da cidade. Agora podemos afirmar que existe um problema? Ainda não. Quando poderemos afirmar? Aí está a dificuldade, em geral não sabemos. Teoricamente o problema vai aparecer quando a renda futura do casal não for mais suficiente para pagar a dívida. Na ausência de bolas de cristal ou outras formas de prever a renda futura, não temos como afirmar se as decisões do casal foram boas ou ruins no momento em que as decisões estão sendo tomadas. Se a renda do casal aumentar com o tempo de forma a ser suficiente para pagar a casa, os carros, as viagens e a escola do filho teremos um casal feliz que tomou decisões corretas, se acontecer a alguma coisa que faça com que a renda do casal não aumente o suficiente vamos ter um casal com dividas e talvez brigando a respeito de trocar os filhos de escola.

Voltemos para o caso da Grécia. A figura ao lado mostra o saldo em transações correntes como proporção do PIB, o saldo em conta corrente é a diferença entre a taxa de poupança e a taxa de investimento. Quando o saldo em conta corrente é negativo o país está pegando dinheiro com o resto do mundo, quando é positivo o país está mandando dinheiro para o resto do mundo. Dito de outra forma, quando é positivo o país está se endividando, quando é positivo o país está pagando a dívida ou se tornando credor. Nele fica claro o tamanho do buraco que a Grécia se meteu e como a subida para sair do buraco foi mais íngreme que a descida.

Em 2008 o crescimento da Grécia acabou, entre 2008 e 2014 o PIB per capita grego decresceu a uma taxa média de 3,93% a ano, só em 2011 a queda foi de 8,37%. Praticamente todos os planos feitos na perspectiva de crescimento de 3,78% ao ano viraram pó com o decrescimento de 3,93% ao ano. De quem é a culpa? Não considero que culpa seja um termo adequado aqui, os gregos apostaram e perderam. Quem financiou os gregos também apostou e também perdeu, é da vida. Menos do que procurar culpados a questão relevante é o que fazer. De cara será preciso pagar a dívida ou pelo menos reduzir o ritmo de endividamento, o gráfico da conta corrente mostra o tamanho do esforço grego para tentar parar de se endividar e até começar a pagar as dívidas, o que começou a acontecer por 2013. É difícil negar que os gregos fizeram das tripas coração para reverter o saldo em transações correntes, mas, para o bem ou para o mal, coração não é feito de tripas e o esforço grego começou a ficar muito caro e a população perdeu a esperança. É o caso do pai de família que mesmo cortando gastos, vendendo a casa e tirando os filhos da escola não enxerga a luz no fim do túnel e começa a se desesperar.

Uma boa forma de captar o tamanho do esforço grego é olhar a trajetória do gasto público, a figura acima mostra o gasto do governo da Grécia como proporção do PIB. Em 2009 o governo grego gastou o equivalente a 54% do PIB, em 2011 o gasto público ainda era 53,7% do PIB. A partir daí o governo grego começou a levar o ajuste a sério e o gasto começou uma trajetória de queda. Em 2013 era 47,8% e, segundo as projeções do FMI, foi de 46,3% em 2014 e seria de 44,2% em 2015, o seria é porque acabo de ver no Estadão que o não ganhou (link aqui). O esforço fiscal parece ser gigantesco quando olhamos a queda no gasto público em proporção ao PIB, entretanto, mesmo que nenhuma surpresa tivesse ocorrido e a projeção do FMI para 2015 se realizasse os 44,2% do PIB gastos pelo governo seriam bem maiores que os 39% do PIB gastos em 1994, quando o crescimento começou, e um pouco maior que os 43,7% do PIB de 2001, ano que a Grécia aderiu ao Euro. A queda, por maior que tenha sido, quando muito colocou o gasto público no nível que estava antes do Euro. Quem se acostuma com filé sofre se tem de voltar a comer coxão duro e se desespera ante possibilidade de voltar a comer músculo. Outro indicador que o ajuste não foi tão grande quanto o necessário é que a dívida do governo Grego continuou a crescer como proporção do PIB como mostra a figura a lado.

Para além do gasto público é possível ver o drama grego por meio da taxa de desemprego, a figura ao lado faz isso. Em 1994 o desemprego estava na casa de 9,3%, em 2008, ano da crise, o desemprego estava na casa de 7,8%, números bons para o padrão europeu. A partir de 2008 o desemprego começou a crescer e chegou a 27,5% em 2013, quase 20% da força de trabalho grega ficou desempregada em um período de cinco anos. É bem verdade que o desemprego caiu em 2014 e o FMI previa outra queda em 2015, mas os valores continuavam muito alto.

A retração da renda e o aumento do desemprego foram fatais para o ajuste grego. Cansada e sem esperanças a população elegeu um governo de extrema esquerda que prometeu romper com a política de ajuste e interromper o pagamento das dívidas. Como a realidade é mais complexa do que imaginam os estrategistas políticos o rompimento demorou um pouco, mas ao que tudo indica, acontece hoje, com apoio do povo da Grécia. Aqui do lado, na Bolívia, tivemos um caso semelhante onde uma política de ajustes que poderia ter funcionado levou a eleição de um governo de extrema esquerda. Mais uma vez aparece a questão sobre a culpa dos credores. Teriam sido duros demais? Novamente rejeito a ideia de culpa. A depender do ângulo alguns vão dizer que os gregos se endividaram demais e outros vão dizer que os credores foram cruéis ao exigir o pagamento nos termos que exigiram. Do meu ângulo novamente vejo apostas. Os gregos apostaram que o jogo duro mudaria a disposição dos credores, os credores apostaram que o jogo duro mudaria a disposição dos gregos. Pelo que parece ambos perderam suas apostas. Vida que segue.

Poderia ter sido de outra forma? Creio que sim, mas não com a Grécia no Euro. A outra forma seria melhor? Creio que não, mas talvez fosse mais palatável para os gregos. Qual a outra forma e por que seria mais palatável? Para mostrar a outra forma é válido lembrar do Brasil na década de 1980. Nossa situação não era essencialmente tão diferente da dos gregos hoje. Nos endividamos apostando em um crescimento da renda que não aconteceu, a conta chegou e não tínhamos como pagar. No lugar de uma crise profunda com taxas de crescimento negativo da ordem de 8,3%, como a Grécia teve em 2011, tivemos uma crise longa que se arrastou por toda a década de 80 e foi bem longe na década de 1990, há quem diga que durou até o começo do século XXI. O que fizemos diferente da Grécia? Fizemos uma gigantesca desvalorização cambial no começo da década de 1980 e permitimos o aumento da inflação que se tornou uma hiperinflação no final da década de 1980. Nossa opção não está disponível para os gregos enquanto a Grécia for parte do Euro.

Deixarei a parte do câmbio para os que acham que desvalorização do câmbio sozinha resolve algo, não é meu caso, e ficarei com a história da inflação. Para isso recorro a mais um exemplo, dessa vez algo que presenciei não tem muito tempo. Em uma reunião do Conselho Administrativo da UnB o reitor e o decano de planejamento e orçamento estavam explicando o corte nos gastos e como os cortes afetarão a UnB. Em um certo momento o reitor relatou uma conversa que teve com um professor que tinha um alto cargo em uma universidade de Portugal, lá ocorreu um corte nos salários dos professores, pelo que entendi a lei de lá, assim como a de cá, não permite redução de salário nominal, mas mesmo assim a redução foi feita. O amigo imagina um corte de salário nominal dos professores da UnB ou de qualquer outra universidade federal? Eu não imagino, o custo político seria muito alto. Por que o governo português enfrentou o custo político e cortou salários? Porque não tinha outra opção. Volto à UnB, lá, creio que nas outras federais não é tão diferente, a folha de salário equivale a aproximadamente 80% do orçamento, sem cortar salários o corte deve ser todo feito nos 20% restantes. Isso quer dizer que, sem redução de salários, o máximo que o governo pode cortar nas federais é de 20%, e mesmo assim se estivesse disposto a cortar tudo que não é salário, ou seja, fechar as federais.

É possível ajustar os gastos com tamanha restrição? Não. Então o que o governo deverá fazer? Esperar a inflação reduzir o salário nominal dos professores e demais servidores públicos. Haverá resistência? Sim, mas muito menor que a resistência a um corte de salário nominal. A proposta do governo de reajustar o salário dos servidores em aproximadamente 5% por ano nos próximos quatro anos ilustra que o governo pretende deixar a inflação reduzir salários reais, as greves que estão aparecendo, mostra a resistência, nada novo ou anormal, nada parecido com o que aconteceria em caso de redução de salário nominal. Por que Portugal não deixou a inflação ajustar os salários reais? Porque Portugal não tem moeda própria e, portanto, não tem política monetária.

A diferença entre os professores da UnB e os professores de Portugal é essencialmente a diferença entre o Brasil da década de 1980 e a Grécia de hoje. A política monetária permite um ajuste que ao que tudo indica é mais palatável para população, mas está vedada pelo Euro. A figura ao lado mostra a taxa de inflação na Grécia, repare como os gregos não contaram com a inflação para reduzir salários reais. Ajustar por meio de inflação é melhor? Depende de para quem, creio que para os mais pobres é pior. A mesma inflação que facilita o ajuste causa uma redistribuição de renda dos pobres para os ricos, vivemos isso na década de 1980 e vimos como a drástica redução da inflação beneficiou os pobres. A inflação também desorganiza os preços relativos o que aumento o retorno exigido para o investimento e pode induzir investimentos ruins. Porém o fato de eu não gostar de uma terapia não me impede de entender os efeitos da terapia, a solução via inflação me parece pior, mas também é menos dolorida. Quem escolhe? A população, os gregos já escolheram, não é minha solução ideal. Creio que o correto seria sair do Euro sem dar calote nos credores e adotar uma política macroeconômica no estilo do tripe que vigorou no Brasil entre 1999 e 2010, uma opção tão mal vista que nem mesmo consta na lista.

A Grécia deveria sair do Euro porque o realismo político mostra que nem os gregos topam pagar todo o custo do ajuste necessário para superar um choque negativo e nem o resto da Europa topa bancar os gregos. Em uma federação tal tipo de troca ocorre normalmente, estados mais pobres costumam receber transferências de estados mais ricos e, em troca, aceitam os limites de gastos e endividamento impostos direta ou indiretamente pela União. Em uma federação, sem a existência de soberania, seria possível que alemães e gregos vivessem com a mesma moeda, fora disso a convivência de ambos com uma mesma moeda me parece fadada a repetir crises como a atual. Talvez minha antipatia por governos fortes esteja inflando meu pessimismo quanto ao futuro da Zona do Euro, confesso que pequenos Estados soberanos me agradam mais do que uma grande federação, mas, nesse momento, para além de minhas implicâncias, a realidade mostra que a união da Europa, pelo menos no que concerne à Grécia, não é viável. O grande projeto geopolítico que poderia garantir uma era de paz na Europa talvez seja inviabilizado pela dura realidade da economia. Talvez a perseverança e o compromisso com a Europa superem as dificuldades reais, mas hoje não parece que vai acontecer. Talvez o resultado do referendo não implique na saída da Grécia da Zona do Euro criando um novo cenário que mude as relações entre os países que adotam o Euro, não creio, mas ao contrário da economia, em política tudo é possível.

Boa sorte aos gregos e boa sorte à Europa! Precisamos de vocês bem.



P.S. Os dados utilizados nas figuras são do FMI.